sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Eu escolho a vida

Eu vejo crescer em mim o medo de um iminente regime fascista com a mesma força que me invade a alma o encantamento de ver a minha vida e a minha história se enredarem em um minúsculo e miraculoso ser que tem meus olhos e os olhos da minha família.sao duas pulsões distintas.vida e morte..medo do provavel mergulho em um tempo de intolerância e luta e a esperança em ventos de afeto, traduzidos por minha própria carne reproduzida diante dos meus olhos..por hora, cedo ao impulso de mergulhar nesse amor profundo incondicional,que me faz enxergar cores e nuances e sentir o peito cheio de ar novamente..me perdoem os que preferem o ódio..hoje eu escolho a vida.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Sobre todos os azuis do mundo

Sobre ser dois, gerar um ser que vai gerar outro ser e por esse viés,ser em conjunto e ser mais...sobre todos os instantes de espera, enquanto outra pessoa se forma dentro de nós...e ver crescer dia a dia o amor que se esperou,em carne, sangue e afeto...Ainda são recentes as memórias dos braços estendidos em busca de colo e já há um novo colo em novas e infinitas demandas...E a nossa história,lida nos livros,na beira da cama,ainda não terminou de ser contada.Ainda estamos aqui ,página a página, diariamente,com as mãos entrelaçadas pelo cotidiano,pelas horas de lágrimas e risos.Hoje ambas olhamos o mesmo ventre,de ângulos distintos,mas com amor igualmente profundo .Incondicional.. Lembra quando a gente ia de mãos dadas,admirar as pinturas na parede?Lembra quando te vi misturar tuas primeiras tintas,em teus inúmeros tons de azul?Hoje teu azul se expandiu , coloriu seu mundo e de quebra também atingiu o meu...Somos duas,somos três,somos muitas esperando o dia do primeiro choro,do primeiro olhar.E sei que teu amor pelo mundo que já é gigante,só ficará maior.. Como é possível que eu tenha gerado alguém como você,feita de sensibilidade e cores,mas também de curiosidade e precisão?De onde estou,os olhos ainda molhados de teu último pranto, teço em silêncio mais uma trama de nossas horas,com mais uma mulher que se apresenta ao mundo,para existir igualmente em azul e sonhos... Abençoada seja Helena... Abençoados sejamos nós que agradecemos a vinda dela..E sigamos,por entre as horas de afeto, infinitamente...

sábado, 15 de setembro de 2018

Sobre o peso das coisas

Em toda dor, em toda angústia, lembra de quem tu és.Lembra da estrada na tua frente, lembra que o único peso que deve carregar é aquele dos seus próprios ombros...Lembra do vento no rosto, esquece as lágrimas, a raiva e todo mal que te fizeram..Guarda a tristeza em lugar seguro, porque ainda há de fazer rimas com ela.Lembra que não és teus títulos, teus trabalhos, tuas obrigações, tua muda espera pelo afeto alheio..És muito maior do que isso.Aí dentro reside algo que ainda não foi tocado,material denso e imponderável de poesia, que as horas incertas do cotidiano e toda tua culpa e todo teu medo não permitiram acessar. Chega.Ja é hora.Lança-te ao mar, sem destino certo e busca finalmente o caminho que sempre soube ser o teu.Ousa.Leva apenas o peso das tuas mãos e a força dos teus sonhos....voa...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Histórias à beira do rio- 2

Diz-se do medo que quem tem,que não mergulhe no Rio. Tive medo... Tremor nas pernas.Mão suadas. Peito em desalinho...Pensei em fugir.Mas o pôr de sol convidava. O leito do Rio era um espelho e o barco jaáesperava. Entrei. E as margens abriram-se para os olhos, douradas, silenciosas, enquanto a proa cortava as águas. Senti as ondas, o vento no rosto.O movimento suave .De uma margem à outra. Cheguei. Mergulhei meus pés na lama barrenta .Caminhei em terra, aeia e grama. Conheci a vegetação suave, dessas que resistem ao calor incessante dos trópicos...Continuei....A cada passo, o medo, a necessidade de voltar...Mas os pés não obedeceram.E seguiram até chegar ali, no meio do mato, em meio à terra. A curva do rio se erguia. De um lado o pôr do sol.Do outro, a lua crescente, refletida nas águas escuras.Sem pensar, mergulhei no rio. Senti o medo dissolver conforme a água me tomava...e assim,no momento que minhas mãos tocaram a água, com um movimento suave, senti sair dos dedos o anel, escorregando como se mão humana a puxasse, para sumir no infinito escuro e frio, como um tributo...em silêncio, concordei.


Histórias da beira do rio- 1



Era um vilarejo,na curva do rio... onde um dia o silêncio chegou... Nas ruas vazias, por sobre o muro das casas, enquanto se coava o café.. Ninguem sabe ao certo quando, enquanto muitos dormiam a sesta, na hora que o sol comecava a se pôr.. De repente, não havia mais música e os ponteiros do relógio paralisaram no mesmo lugar.. A moça na janela esperava em vão a carta que não chegou. A velha senhora, sentada na frente da casa, pitava seu cachimbo... Ninguém sabe quando os sinos da igreja pararam de tocar. As mães foram para a rua procurar as crianças. A roupa secou no varal, sem que ninguém fosse recolher. O vendedor de doces chegou até a praça e encontrou um jornal velho, de muitos anos, amassado ao lado do banco. Enquanto o medo crescia, as avós trancavam seus netos nos quartos e as professoras fechavam as portas da escola..O padre, benzendo-se, ajoelhou-se no chão e começou uma novena.E foi ali que o prefeito o encontrou, para comunicar que o relógio da prefeitura havia parado. Os funcionários foram dispensados de suas funções e mandados de volta para suas casas...Ajoelharam os dois, em muda oração,enquanto o silêncio se fazia cada vez maior...Já eram muitas as portas e janelas fechadas e ali adiante a vendedora de acarajé recolheu seu tabuleiro, deitando ao chão o conteúdo de suas panelas... No bar da esquina só restou o bêbado, dormindo sobre a mesa, enquanto o garcom fugia de bicicleta, deixando a pia aberta a escorrer a água por sobre o balcão...Todos buscavam a razão do silêncio, agora retumbante e infalível, atravessando as horas do dia, impondo-se a cada um. Dentro do peito a incerteza da espera, o medo do inesperado fizeram muita gente chorar....O velho banqueiro,aposentado, trancou as economias num cofre e enterrou num quintal...A viúva da esquina, prevendo um desastre,deitou sobre suas joias, embaixo do travesseiro.Portas e janelas fechadas, cada um cuidava de seu medo..Nem notaram quando, impondo-se ao silêncio, um homem magro, de chapéu na cabeça, atravessou devagar as ruas, em sua bicicleta..Parou na praça, caminhou até o centro, ali estendeu seu lencol em um varal..Tirou da garupa uma banqueta e uma maleta. Depositou no chão...De lá tirou um espelho e algumas tintas...Correu ao rio, mirou-se..Pintou o rosto....Voltou à praça e então, sem esperar convite, tirou do bolso uma pequena gaita e comecou a tocar... De início ninguem se apercebeu.Foi a velha senhora que, espantada, abriu a boca e deixou seu cachimbo cair....Ouvindo aquilo, a moça, que estava em casa correu para janela e viu o homem, que continuava a tocar.Sem demora, ela abriu a porta, correu ao jardim, colheu uma flor vermelha e foi para o meio da praça escutar.. Animado, o homem que tocava comecou a dançar ao redor da moça,que acompanhava a melodia com palmas,ainda timidas. Ali perto as crianças ouviram os dois e saíram de casa, pulando a janela, para espiar. Ao verem o homem e a moça que dancavam, fizeram uma roda ao redor do dois....Correu o garcom, veio a viúva, chegou-se o bêbado,já dançando no meio da rua.Fez-se barulho na frente da igreja e a porta se abriu....Cheegaram o padre e o prefeito. se viram em meio ao povo, correndo das casas, girando na praça, em palmas e risos..No meio de tudo a moça e sua rosa, giravam também, enquanto a gaita tocava...O vento chegou, a noite veio e o povo não parara de dançar... Em dada hora a vendedora de acarajé caminhou até a esquina e ali montou sua banca,apreciando a cantoria.ninguém notou quando foi,mas em algum momento os sinos recomecaram a tocar....E vieram os pescadores, da beira do rio, para admirar as moças que, sem parar de dancçr, puxavam pro centro da roda cada pessoa que vinha espiar..chegou a viúva, ergueu-se de sua cadeira, pediu licença aos dancarinos, tomou a rosa dos cabelos da moça, pendurou atras da orelha e, amarrando as saia,pôs-se tambem a dancar.A tarde caiu, veio o vento da noite, ninguem notou que era hora de dormir.....Passou-se um dia, mais dois e tres, uma semana inteira e ainda não havia quem voltasse para casa....O prefeito,precavido, decretou feriado de três dias, trancou a prefeitura e correu também a dancar....E a rosa, que passara de mão em mão, acabara ali, no leito do rio, levada pela correnteza até a outra margem onde o velho senhor,morador da tapera, veio a recolher depois...Ainda úmida,quase despetalada, foi replantada então, na frente da casa..Dizem que ainda hoje, quem chega, pode ouvir, se chegar bem perto, o som da gaita, na curva do Rio, em meio ao vento que bate ao pôr do sol...

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Siena






Mesmo nos dias mais cinzentos,
Te recorda das cores dos girassóis se erguendo em direção a luz..
O chão claro de pedra ancestral nas ruas sinuosas de paredes estreitas..
Por sobre as pequenas lojas,lembra do cheiro doce dos grandes merengues em exposição nas vitrines..
E as pessoas sentadas nas calçadas, dividindo espaço com as bicicletas e vespas coloridas.
Lembra de teu passo lento, caminhando sem rumo até a Grande Plaza de Marte, do chão de mosaisos desgastados pelo tempo e das pizzarias amareladas com grandes toalhas brancas ao redor.
Lembra do teu corpo estendido no chão por entre os pés alheios,com a única obrigação de contemplar a lua e existir,em surpresa e êxtase.
Nos teus dias mais escuros e tristes lembra do deslumbramento do sol de Siena e do amor no teu peito,tão impossível quanto certo... Tão distante quanto profundo, fazendo teus passos mais lentos e teu olhar mais luminoso. Lembra da música que te vinha à memória e do som de palavras que não foram ditas mas que enchiam teu peito de esperança..
Recorda de cada palavra dita,de cada imagem vista e que um dia,em um fragmento de tempo prosseguiste apenas e somente para existir ali,por entre os não ditos, sob o sol da Toscana..

domingo, 15 de julho de 2018

O caminho de volta

Seguir o caminho escolhido, redescobrir
Ou aventurar-se em terras desconhecidas
Sem bússolas ou mapas
E pela primeira vez sem ter o peito preso ao nós.
Não. Ao contrário. As mãos restam junto ao corpo, leves.
E as pernas, ainda a medo da liberdade recém aprendida,
Redescobrindo os passos, no reexistir da vida.
Pela primeira vez, não foi o medo da morte ou a promessa de vida.
Foste tu. Realinhando teus próprios planetas, distanciados em tempos de sangue e lágrimas.
Na tua caverna escura, onde ficou tanto tempo, restam as imagens e palavras, e nomes mil vezes repetidos e sonhados.
Entre tantos possíveis, entre tantos caminhos, perdeu o trem do sucesso, rompeu as juras de amor, atravessou o escuro da noite. E descobriu que estava ainda no início da estrada.
A maior travessia, ainda mal iniciara, o caminho tantas vezes visto e tão pouco percorrido, enquanto esperavas pela hora certa de ser e estar. E ali, no constante barulho dos ponteiros do relógio, havia um silêncio por entre todos os outros. O teu. E mergulhara. De novo e mais uma vez, na tua inescapável imensidão.
Estava ali, o tempo todo.
Era tu. Tuas poesias incertas, tua dança desconexa, teu peito cheio de ar. Sempre fora tu.
Enquanto generosamente distribuía teus versos, criando personagens, permanecia ali, em estado de alerta, esperando a hora certa de dizer.
E teu corpo, aguardando a luz alheia, entre fragmentos de sim e não.
Mas foi justo no momento em que se distraía, no interstício de um talvez, que tu te levantara e se postara irremediavelmente ali, no meio do palco.
Súbito o burburinho da plateia, as promessas de amor, os títulos e certificações...
Restam todos ao chão.
Em meio ao espanto geral, deixara a última máscara cair e contemplaste teu rosto no espelho e a intangível liberdade de ser.
Ali estavam as marcas de um tempo de dor, as linhas imprecisas de um viver de metades, de espera e cansaço.
Mas entre uma e outra ruga, tu te reencontraste, a mesma de sempre, os mesmos braços querendo voar, as mesmas mãos querendo alcançar o infinito...
E seu corpo, para sempre imperfeito, ousando ser belo, apesar do tempo, apesar do caos...
Súbito já não é a arte.
Já não é o amor. É tu, em teu caminho de volta, de onde jamais saíra, afinal...
Tuas cores, tuas sombras, misturadas em meio à tinta de todos os dias. Na desmedida beleza de reencontrar ali, nas mãos vazias, tudo aquilo que era necessário.
Existir.Além. Apesar. Tanto e Sempre.

foto:Tatiane Mendes
trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=jhat-xUQ6dw
para mergulhar mais: https://www.youtube.com/watch?v=bWQm5L0jfLA

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Memória

Eu fui criada em uma família em que os almoços, desde a geração da minha avó, duravam horas. Depois da comida, vinha o prato principal, que eram as histórias da gente e de antes da gente, muitas repetidas infinitamente, repassadas por muitas vozes, cheias de detalhes novos, reinventadas a cada encontro. Eu me lembro de sentar perto dos adultos, pra tentar captar aquelas narrativas, ouvir os risos, a espera, o narrador da vez e os risos que vinham no final.Para mim, era como um número de circo, fantástico, desses que a gente não ousa interromper..E eu observava sempre as mesmas histórias, repassadas como um cálice de vinho que se sorve aos poucos..A gente grande bebia um pouco de memória e passava ao outro,que bebia também e assim cada um ia tomando um pouco mais, até que, no final,todos tinham experimentado um pedacinho daquela emoção.Boa ou ruim, nada era deixado de lado..Ria-se e chorava-se com a mesma vontade.Eu me lembro de ficar ali, do lado deles, ouvindo histórias de gente que tinha ido e observar os rostos, as vezes no frouxo de riso, outras contendo o choro,mas sem parar nunca de contar...O tempo passou e aos poucos eu fui me sentando cada vez mais perto, tomando meu lugar na roda, sem deixar nunca de me sentir ali,observando também..E aí chegou o tempo em que a memória era minha, em que me cabia contar, para diminuir a saudade e trazer pra perto tanta gente que eu amo e que já não está mais por aqui. Então foi aí que eu vi que ,bocadinho por bocadinho,cada história diminuía um pouco a dor, fazia com que se preenchesse a saudade com um tanto de presenca..E eu aprendi que a gente não deixa nunca de visitar as pessoas que ama,nem elas deixam de aparecer. A cada vez que nos juntamos para desfiar a trama das nossas horas compartilhadas, para contar um tanto de risos e mais um bocado de lágrimas, a gente vê abrir sem sentir a porta da memória e escapar pra dentro um monte de gente que ainda devia estar por aqui e assim, como mágica, no meio da roda, entre a emoção e o espanto, aparece sem avisar para dar um alento no peito e um pouco de coragem pra gente seguir..E a gente,seque - que jeito? -para vida de todo dia. Mas ali no rosto fica , silencioso, por um tempo indefinido, um sorriso discreto, meio dolorido, com gosto de saudade

terça-feira, 3 de julho de 2018

Cidade dos Anjos

Que todo afeto seja canto
que todo gesto seja reza
Que todo amor seja corpo
Que todo sim seja mergulho..
Que todo instante seja o último..
Que todo toque seja dois...
Porque quando os olhos fecham e onde ir não importa.
quando o peito se enche de ar como se fosse a primeira vez ..
nem uma palavra será capaz de explicar..
O instante em que o silêncio se faz ..e os braços se erguem para ir além
para subir mais alto.para ser, mais e intensamente.
Eu.Você.Nós.
trilha
https://www.youtube.com/watch?v=QaeALaGlLKs

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Pelo outono que já passou

Pelo outono que já passou
E ainda restam um tanto de vermelhos e amarelos para registrar
Nem bem senti o vento frio e o calor perene dessa cidade
já convida à rua
E o café feito ainda não esfriou.
Ainda naã,eu digo,só mais um pouco. Mais alguns dias de reclusão e espera.
Que o pensar, assim como o sentir, ainda carecem de ordem.E ainda hã muito de Tons e Vinicius para ouvir
Só mais um pouco,mais alguns dias e receberemos juntos o inacreditável aumentar do termômetro..contrariando todas as regras.
Em vão jazem empilhados na mesa todas as Clarices e Josés e Manoeis...Do outro lado,magnânima, acinzentada, a indefectítvel pilha cientiíica das obrigações grita....
-já é hora...bastar de sonhar..
Mas ali ao fundo a paleta de cores aguarda, no papel em branco, o tempo exato de existir e dizer com urgência,
tudo aquilo que os métodos não conseguem abarcar..

terça-feira, 15 de maio de 2018

Aviso aos navegantes

A todos aqueles que estão nesse barco, atravessando a tempestade .a todos aqueles que tem acordado no meio da noite com o som continuo do relógio,em voltas intermináveis. E que se perguntam :qual o sentido de tudo afinal?no balançar das ondas quantos mais restarão?a cada dia mais corpos caem nas águas negras do esquecimento.uma a uma as memórias vão se desmanchando ante a ação do vento,sem conseguir contudo romper a camada espessa de poeira sobre os móveis.em vão batera às portas.ninguem abrirá.. deverá continuar sua trajetória na mais completa solidao.agora já sabe qur nao eh certo que consiga alcançar o final do túnel . nem tampouco de que haverá um final.mas precisa continuar.... seguira em silêncio ouvindo os ecos das conversas alheias, gargalhadas exageradas, sussurros e lamentos.nao os ouça.estao todos muito atras de você, construindo em areia seus castelos de pequenas certezas.prossegue.em algum momento as paredes nuas e frias do corredor te levarão a uma unica porta por onde só tu pode passar . atravessa-a.ali caminhará até a parede e então ao contemplar o espelho chegara entao ao final de tudo.ou seria apenas o princípio?

terça-feira, 8 de maio de 2018

Pedras.Muros.Portas.Certezas. Quando tudo que ela queria era ser pena voando no ar, pés esticados e mãos tentando alcançar o infinito... Palavras.Frases.Fórmulas. Para quê tudo isso, se a vontade era apenas girar o corpo em movimentos precisos,arriscar um passo e voar? Tantos anos, tantas páginas viradas, titulos, aprovações, currículos, obrigações?Enquanto isso,no fundo do armário os sonhos, presos entre as teias de aranha, sem utilidade aparente. Enquanto isso o corpo curvado entre os livros,inúmeros e a vontade de voar.E o tempo do relógio a bater sempre no mesmo ponto.Enquanto escreve initerruptamente, ela sente as vérterbas da coluna dolorosamente dobrada, latejando os sonhos que nunca viveu..Será que ainda há tempo?O esforço a cada dia é maior, as lágrimas não cessam de cair e a cada momento a pilha de textos só faz aumentar. E se ela soubesse que dentro do armário ainda há a mesma caixa fechada esperando o dia certo de ser aberta? Ali no fundo, as mesmas sapatilhas cor de rosa, guardadas toda a vida para o dia seguinte. Enquanto isso tudo espera e a vida não cessa de perguntar:até quando?

sexta-feira, 13 de abril de 2018

um dia,como muitos outros

Trilha sonora:https://youtu.be/Bn3_2nz7VRI

Era um menino e uma menina. Viviam no mesmo bairro
Estudavam na mesma escola
Como muitos outros.
E como muitos
, tinham amigos,jogavam no recreio E detestavam matemática
Um dia, como muitos outros dias
A menina sorriu como sorria muitas vezes.
foi a primeira vez que o menino viu.
e a única vez da qual ele se lembra
O menino e a menina sorriram um para o outro,na volta pra casa.
e por muitos outros dias,estivessem juntos ou separados.eles sorriam um para o outro.e um dia a menina percebeu que tinha um sorriso que era só dela.
O tempo passou como sempre acaba passando e no sorriso de cada um eles esqueceram de sorrir um para o outro.
o menino sumiu .a menina chorou.
E por muito tempo so houve silêncio ao redor.
Um dia o menino olhou pra trás e viu que fazia muito tempo que não sorria .olhou a menina ,que já nao o olhava mais.
ele esperou.entao um dia fechou os olhos ficou em silêncio e estendeu as mãos.
Por algum tempo nada aconteceu e então quando ele menos esperava, sentiu duas mãos segurando as suas e não precisou abrir os olhos para saber quem era.
e desde então o menino e a menina passaram a sorrir e a chorar juntos todos os dias,como tem que ser todos os dias, quando temos sorrisos que não são só nossos e mãos que não permanecem sozinhas por muito tempo .
assim, quando eles menos esperavam a vida fez uma pausa, apresentou um desvio, gelou o coração dos dois.
menino e menina com medo.
sem lembrar de sorrir.assim foi por algum tempo.ate que um dia,como são muitos dias,ele viu que ela sorria e ele sem perceber, não pôde deixar de sorrir.
menino e menina,que já não eram mais dois.passaram a ser três, para sorrir e para chorar,como são muitas vezes as histórias que começam com um sorriso e que permanecem,quase sempre,com mãos estendidas,pelo tempo que for . Trilha sonora:https://youtu.be/Bn3_2nz7VRI

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Helena,vem ver o mundo

Helena,tão bela,ainda não conhece o mundo

Não sabe de todas as guerras

Desconhece os murmúrios de dor

Ignora o sofrimento humano

Não ouve as mães que choram por seus filhos, o sangue no asfalto,

os feios carros pretos,subindo incessantemente as ladeiras

Helena não vê o rosto do homem, que acorda sobressaltado,pensando no emprego que perdeu.Ali do lado do berço, o segundo filho dorme e o terceiro espera para nascer

. Helena não sabe o gosto amargo das esquinas dessa cidade, onde o ódio e a intolerância matam.no grito ou na bala, qualquer projeto de liberdade. Helena não sabe nada.

Só sabe que quer vir.

Quer ouvir o latidos dos cães, a preguiça dos gatos no chão,

sentir a brisa fresca de outono,caminhar na areia branca da praia, mergulhar no mar azul.

Helena quer girassóis nos cabelos,

quer ouvir as canções dos homens,

quer inventar sua própria poesia.

Enquanto escrevo, Helena chegou na janela, olhou lá de cima e cismou que era hora de vir aos homens.

Enquanto dormimos ela prepara sua chegada, silenciosamente, trazendo as cores de uma nova estação.

E eu,que há muito não sonhava, hoje espero seus braços e seus olhos nos meus..

Dorme Helena, enquanto é tempo,

para na hora certa acordarmos para a sua poesia,no tempo certo de tudo..

E então, quando houver ódio e a vida mostrar o não, tu pegarás minha mão e me levará até a janela,para mostrar tudo que ainda pode ser





quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Suddenly

De repente não havia mais quarto, as paredes escuras afastadas como mágica, no meio da noite. Da luz azulada do monitor, que dava contornos frios aos móveis, emanava uma espécie de brilho difuso, permeando cada superfície de uma textura única. De repente, cada acorde da música que insistia em tocar, se estendia em uma pausa infinita. Nas mãos o telefone, perdido entre os dedos, enquanto os olhos, fechados, absorviam cada segundo. Uma palavra. Seu nome. E o tempo já não era mais o mesmo. De repente, ao ouvir a voz que chamava, era como se descobrisse que era sua a espera também. Enquanto isso, as tintas descascadas, os quadros dispostos na parede, adquiriam um tom de azul peculiar. Era a luz da lua que entrava no quarto. E era como se cada parafuso, cada pedaço de metal das esquadrias, vibrasse, assim como ela .Chegou à janela. Nos prédios à frente, as luzes da tv coloriam a paisagem de pontos luminosos. Rostos, paisagens, instantaneamente misturados ao asfalto da rua.De repente sentiu-se parte de uma grande tela onde as tintas mesclavam-se em matizes distintas de luz e sombra, escrevendo fragmentos de tempo e espaço em tons de amarelo e azul. Sentia que mergulhava em um oceano profundo de sensações, como um banho morno depois da chuva, tirando da pele todo resquício de cotidiano ainda existente. Sentiu como se fosse parte de um grande musical, onde os elementos de cena, a um toque do diretor, começassem a funcionar, em um cadenciado balé de rostos e mãos. De repente via a rua como um grande palco iluminado pela luz da luz. E o peito se enchia de encantamento, como se assistisse a um filme. As pessoas sentadas no bar, o instante do brinde, os risos e as mãos e copos erguidos... A bicicleta cruzando a esquina, com dois grandes embrulhos amarrados. O letreiro da farmácia de frente. A senhora voltando para casa, com uma pequena bolsa de mão, o casaco fino e o olhar cansado. Até mesmo o velho, que se demorava na escada da padaria, contando dinheiro, enquanto alimentava seu cão. A um só tempo todos os personagens adquiriam uma cadência única e ritmada e seus gestos pareciam fluir em uníssono, com uma grande orquestra. Enquanto isso, o cachorro se desprendeu de seu dono, atravessou a rua, desviando do ônibus, apavorando os passantes, subindo na mesa e abocanhando os restos da refeição do jornaleiro, sentado na última mesa do bar. Ali, da janela, não pode conter as lágrimas, quando o velho senhor, correu a buscar o cachorro e acabou parando para tomar uma cerveja com seu novo amigo, recém conhecido. De repente, os dois velhos sentados e o cachorro, e o encontro e o afeto só eram possíveis porque ali, na escuridão do seu quarto alguém, a 3000 quilômetros de distância, telefonara pela primeira vez para ela e chamara seu nome. Aquela voz, pela primeira vez ouvida e mil vezes reconhecida, na pele, nos ossos e na memória, atravessara o tempo do não, quebrara as paredes da dúvida e estendera as mãos. Buscara ela. Somente ela. No intervalo do medo, ao antecipar-se à dor, invadira cada espaço seu. E ela já não se reconhecia mais ou ao mundo ao seu redor, como se tudo de recente ocupasse exatamente o lugar que deveria. Como se a luz e as cores e as formas sempre devessem estar ali, compondo imagens e sugerindo poemas, oferecendo histórias e tramas e antevendo trilhas sonoras possíveis, absolutamente outros porque ela certamente era e eternamente seria absolutamente outra a partir de então. O telefone nas mãos não esperava mais a resposta. A confirmação do nome. O sim já fora dado. Em instantes o silêncio invadira a vida, rompera o relógio, oferecia outra geografia e a única circunstância concreta de todo o encontro era o sorriso silencioso que restava nos rostos, de cada lado da linha telefônica. Que importava se não havia corpo, se não havia rosto, se a matemática e o calendário eram outros? Em cada lado do peito, de repente, o silêncio era a única resposta possível.
Trilha sonora para o texto https://www.youtube.com/watch?v=2BOjtM7iqzA

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Prece

Que todo riso seja prece
Que toda palma estendida seja convite
Que todo braço seja apoio
Que todo silêncio seja compreensão
que toda canção seja abraço
Que toda tarde seja amena
que toda voz seja mansa
que toda lágrima seja enquanto
que todo grito seja riso
que todo olhar seja além
que toda esperança seja nossa

domingo, 18 de fevereiro de 2018

vivam!

O eu profundo e instável, rasgado entre os papeis espalhados na mesa.Ah! Eu quero o ser pequeno e frágil, que se move entre as máscaras penduradas na parede, que sangra e sente, no intervalo das horas...Nada de meias verdades, de discursos retumbantes, eu quero o intenso intervalo de silêncio que pesa no peito como ferro em brasa. Enquanto o caos habita, ponho ao chão, uma a uma, minhas certezas, lanço os quadros na parede, livros abertos, fotos, objetos decorativos, em uma pilha que já se faz alta, no meio da sala. É preciso pôr fogo a tudo que confere estabilidade ao cotidiano,é preciso navegar no escuro para tocar a face do real, que se esconde no espaço entre dois olhares, onde as mãos se estendem e o coração pulsa. De súbito me enojam as pequenas verdades, os gestos de comedido afeto, as expressões de alegria superficial. O que busco vai alimentar-se na dor mais profunda da alma, na pele vermelha de dor, mas absolutamente encharcada de sentidos, múltiplos e transitórios, posto que reais, em seu infinito fragmento de espaço e tempo...Não me tragam respostas, eu quero as perguntas, todas elas, lançadas ao rosto, com dor e fúria...Desse ser, humano e tenso, que se desfaz em poesia e busca infinitamente,ignorando as máscaras, os jogos, as fugas..Eu quero a coragem do caminhar ante o silêncio, o gesto sutil de despir-se dos medos, grandes e pequenos, a dor absoluta de saber-se só...O peso de não receber recompensas, apenas a intuição de estar no caminho certo,mesmo que por breves intantes...As canções breves e sem sentido, a dança absurda em meio à multidão. A angústia profunda do existir. O desafio diário de ser. A brusca procura do nós...Para fora todos os personagens, para fora as ações comedidas, rompam a pele, deixem cair a lágrima. Soltem da garganta do desmedido e absurdo grito. Vivam!

sábado, 3 de fevereiro de 2018

wish you were here

[...] de repente,uma porta se abriu e foi tão sutil que, no compasso dos ponteiros do relógio,não foi possível ouvir um ruído. Enquanto lá fora os sons de carros e freios de ônibus cortavam o dia, houve um instante de silêncio . O único som existente era o quase imperceptível sussurro da respiração, em algum lugar da casa. Quase instantaneamente os olhos se fecharam. E as mãos,à revelia de todos os nãos,se estenderam em direção ao inesperado. Nenhum movimento foi feito.Não era necessário.Não ainda. Enquanto lá fora a vida continuava,nos cantos extremos da sala,dois rostos voltados em direções distintas,se contraíram sutilmente em um breve sorriso. trilha sonora:wish you were here https://www.youtube.com/watch?v=3j8mr-gcgoI

domingo, 21 de janeiro de 2018

Da busca procura da poesia.

Acordei com vontade de poesia. Não me adiantavam o café, o leite, a organização confortável dos móveis, no mesmo lugar onde eu deixara ontem à noite. Eu queria o correr livre das palavras, o fluxo saindo do peito, as rimas que me impelissem cada vez mais para frente. Mas ali, no meio da sala, só encontrei mais do mesmo. Sobre a estante, a poeira fina do tempo de todo dia, no sofá, o desarranjo das almofadas. Tudo no mesmo lugar. Mas eu? Ainda em busca de algo que me fizesse respirar. Corri à estante. Vasculhei os livros. Pessoa? Barros? Drummond? De quem seriam as palavras que me salvariam, me garantindo só mais um dia? Naquele momento, nenhuma frase me bastou. Eu queria o verso que me arrebatasse, me tirasse do lugar, que me dissesse que haveria mais alguma coisa além do almoço de domingo, das contas no móvel da sala, da justa organização de corpos e sentimentos ao longo das horas. O que eu buscava era o desequilíbrio, a pele arrancada em um único gesto, a carne trêmula e pulsante, as mãos estendidas, o peito tentando a todo custo voltar a respirar.. Qual seria o texto, a palavra, capaz de retirar o o invólucro de normalidade com que amarramos os dias e me jogar de voltar no ambiente sutil e silencioso do caos? Tinha que ser ela, Clarice. Abri os livros percorri as folhas. Macabéa. Ana. Lori. Ulisses. Nada aconteceu. Talvez a angústia dela não fosse a minha, talvez as palavras já tivessem produzido seu efeito no tempo necessário. Desesperei. Se nem em Clarice encontraria alento, onde mais procurar? Foi então que vi. Olhei para o lado, no canto da mesa. Branca, Inerte. Vazia. Irresístivel. A folha de papel. Caminhei até ela. Busquei o lápis, e sentei. Em algum canto da sala, entre Vinicius e Drummond, na última prateleira da estante, me pareceu ouvir, abafada, uma risada sutil. Éramos eu, o silêncio e ainda e sempre a busca procura da poesia.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Sobre os fabulous 40, que ainda não chegaram

Sobre ter 30 anos e atingir a plenitude, de quem mesmo?Corpos malhados, cabelos tratados, unhas e pele em dia.O trabalho e a família, bem, obrigada.As primeiras desilusões sérias, as primeiras amarras definitivas (ou pelo menos, nós assim achamos)..E a perfeição, para quem mesmo? O objetivo, não poderia ser outro, senão receber o olhar admirado, profundo, desnudante, do outro, esse sujeito que muitas vezes, não sabe absolutamente nada sobre nós, mas nos rasga a pele, penetra a carne, faz o sangue fluir nas veias quando se digna a nos desvendar, nem que seja um pouco, entre entropia e conflito. E quando a entrega se faz presente, na fímbria do maravilhoso, que plenitude atingida, que sensação de poder, como nos amamos e bastamos ao mundo, apenas pelo toque do olhar que nos é alheio.Apenas porque somos amados. Enquanto nos perdemos entre o eu e o nós, os anos passam e então, a um piscar de olhos, estamos a um passo do temidos “enta’...Ah! Os quarenta. A pausa necessária, o momento do silêncio, de caminhar até o espelho e encarar, uma a uma, as primeiras rugas, do rosto e do coração. Na tempestade cotidiana, quase nunca nos damos conta do tempo que passou. Mas é aqui, quando o calendário se impõe, que a reflexão se faz prioridade. Quantos passos dados, quantos tropeços? O que ficou, das causas perdidas, das palavras não ditas, dos abraços não dados? Enquanto me questiono, analiso a imagem no espelho. Percorro os detalhes, dos dias e horas passados, as frases ouvidas, muitas, com marcas ainda no corpo, as cicatrizes aparentes. Na espera dos braços, do colo, do toque, as mudanças, muitas delas, passaram despercebidas...Sobraram os sonhos, na batalha diária, ante a angústia de continuar respirando, só mais um dia. Sobraram as memórias, da longa espera, dos dias de sol, das lágrimas escorridas, no cansaço da procura. E o que restou? Restou o sorriso, no rosto, ainda e sempre, mãos estendidas, não mais em relação ao outro. Agora, em direção a mim mesma. Pela primeira vez, o olhar não se oferece ao alheio, mas se aprofunda larga, vertiginosamente em direção ao próprio peito... Onde esteve essa mulher, esses anos todos, enquanto ouvia o tique-taque incessante do relógio, na pressa de ser? O que falar sobre esse corpo, já tão castigado, entre idas e vindas, máscaras repostas continuamente, na urgência de se defender. Hoje não. Pela primeira vez o rosto nu, diante dos meus olhos e a beleza incorrigível do ser, apenas para si. Pela primeira vez, as curvas me parecem exatas, a pele,por um breve momento, na medida do que é. Pela primeira vez, as cicatrizes não me alarmam. Ao contrário. Me a justam na precisão daquilo que vivi. As paixões desmedidas, a coragem irresponsável e os nãos, todos eles, principalmente os ditos por mim. Sim, eu, formada no impulso e na paixão, os disse, surpreendentemente, na ânsia do vivido, na urgência do encontro. Pela primeira vez eles não me doem além do necessário. Fazem parte daquilo que sou. Mas essa mulher, ali, no espelho, a expressão, entre assustada e curiosa, os ombros caídos, o cabelo desgrenhado, mas os olhos, esses me olham, por um longo tempo. Nos encaramos. O que fica dela aqui, no cotidiano das horas, na necessidade do distanciamento, na interface com o outro? Será que dali, de onde o outro me olha, é possível ver que essa mulher grita e sangra e ferve, a intervalos cada vez menos regulares? Estaria a máscara bem ajustada, para que não seja possível enxergar, a fragilidade de cada palavra, o tanto de sonhos que ainda escorre das mãos ou estaria eu, supremo pesadelo, inteiramente despida diante da multidão?Saberiam eles o quanto ainda é capaz de se oferecer por inteiro, a cada palavra, de mergulhar de peito aberto, sem medida e sem remédio? Ao menos diante de mim, eu não me escondo mais. Ao contrário. Me encaro, despudoramente, em meio ao caos. Por hora teu cinismo estará guardado.Ao menos para teu uso. Já sei onde sou fraude e onde sou real. E já sou capaz de sorrir. Quantas batalhas,senhora,todas perdidas. Mas tu não te perdeste, é o pensamento que me vem à cabeça. Mas hoje só hoje, não sou capaz de escrever e me deixar tomar pelas frases se ajustando aos poucos, gritando no ouvido, formando o tão conhecido bolo no meio do peito, prendendo a respiração. Só por hoje a porta está fechada ao outro, ou ao menos a seu olhar . Só por hoje só o meu olhar importa e me encaro e aceito, exatamente na medida que sou. Talvez seja essa a sabedoria dos quarenta, agora mais do que nunca aguardados. Para que esse mergulho, essa descoberta, não se canse nunca de acontecer. Enquanto me olho, e desvendo aos bocados, ali,no fundo do espelho, há uma mulher, silenciosa, que, sem um gesto, me observa e , no canto dos lábios, deixa transparecer, aos poucos, a curva sinuosa de um sorriso.