sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Poesia em uma hora dessa?

Se não é possível mais ouvir música,se as ruas restam vazias, se os corpos que antes dançavam, estão encolhidos em cantos dispersos, se as paredes foram pintadas de cinza, se o ódio é a unica língua comum? Onde buscar força,se ate mesmo as palavras,que deveriam revelar o sentido do possível,esgarçam o silêncio que sufoca a garganta?em que momento Perdemos a coragem, você me pergunta, e deixamos de acreditar?quando foi que passamos a não ouvir mais nossas vozes e a apenas ouvir o retumbante silêncio das ruas?quando foi que nossos corpos passaram apenas a sentir dor e não a energia de cada um de nós?quando foi que deixamos de cantar?lembra quando acreditávamos que resistiríamos?e quando tudo diz não,o que temos ainda a fazer? (to be continued...)

domingo, 15 de outubro de 2017

Spread your wings

Enquanto tuas asas secam da tinta dos dias, eu preparo uma canção, para que se lembre de mim...Escrevo meus melhores versos, em tinta permanente e lacro minhas palavras em moldura dourada, tecendo as letras uma a uma no papel...E o tempo que escorre pelos meus dedos me impede de ver que tuas cores são as mesmas que as minhas e teus sonhos ainda são os meus. Que seus olhos enxergam minha estrada e seguimos na mesma direção... Em vão fecharei a janela, porque lá fora o vento é forte. Já não me escutas chamar. Vai voar e a tempestade não te mete medo. Eu sopro um beijo, mas não olha para trás e sai porta afora. Persegue um ponto invisível na estrada... Choro tua partida sem perceber que já partiste muitas vezes, tantas que já não sei contar. Em todas voltou outra, o mesmo sorriso, as mesmas certezas. E eu, tão preocupada em lamentar tua falta, não percebi que continuaste aqui, nos meus gestos, nos meus olhos, nas mãos que ambas estendemos para o desconhecido...Mas é na poesia da tarde que amamos com a mesma paixão, que vou te encontrar ali, teus cachos no vento. Você dorme no meu colo, mas quem me embala é você . Enquanto as lágrimas escorrem pelo meu rosto, vejo um breve sorriso nos teus olhos fechados e sei que você sabe, antes mesmo de mim, que continuamos juntas, mãos entrelaçadas à revelia da distância, em direção ao sol.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

da bailarina

As mãos suadas, apertadas no colo,tanto quanto o coque,no alto da cabeça. O glitter não disfarça as rugas de medo, no canto dos olhos...Ao redor, os metros de tecido espalhados, na saia rodada, enquanto os pés , calçados em incômodas sapatilhas de ponta, estão solidamente plantados no chão.Só mais alguns minutos e ela estará no palco.Foram meses de ensaios,compromissos desmarcados, a expressão de desdém e incompreensão de amigos e a pergunta:para que tanto esforço? Filhos criados, o trabalho estável, tudo no seu devido lugar.Menos ela.. Em um impulso, estava na escola de dança.Dali,para o espetáculo foi um piscar de olhos.Ainda não sabe bem onde começam os passos, está insegura sobre a marcação e não sabe bem o ponto correto da música.Só tem certeza de uma coisa:estar ali é o que a mantém viva há meses. O sinal é dado.Ela entra no palco como quem atravessasse uma dimensão nova. No primeiro passo, o holofote atinge em cheio o rosto, cegando-a. Respira fundo.Talvez fosse melhor voltar. Os joelhos fraquejam.Então fecha os olhos e ouve. A música penetra seu corpo. Seus braços se erguem para atingir o céu.os pés ganham equilíbrio, levados pelo som e as mãos giram no compasso certo da música. Não sabe bem como conseguiu a primeira pirueta .Como magia sente seu corpo rodar em direção ao infinito.E então ela flutua por sobre o palco, sem medo ou hesitação. São instantes de extase, em que o silêncio dentro dela finalmente fizera sentido. Os olhos se fecham,as mãos se erguem na pose final.De repente,aplausos. Abre os olhos e caminha lentamente para fora do palco. O rosto banhado de suor, o corpo tremendo,mas a luz do rosto ilumina a todos que olham pra ela..Finalmente aquilo sem o qual não poderia viver,a plenitude de si, o instante mágico pelo qual ansiara por tanto tempo.Por breves segundos aprendera a voar.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Do flamenco

o Dançar flamenco é estar precisamente no limiar entre o sim e o não.Entre a dor mais profunda e o êstase mais absoluto.Estaremos sempre passos aquém da perfeição.Nossos pés não conseguiriam,por mais tentassem, atingir a exata medida da velocidade do taconeio,o girar preciso das mãos, a curvatura vertiginosa das pernas.Sempre estamos a um passo de desistir,cobertos de suor, as pernas doloridas,as palmas das mãos estendidas, o rosto marcado pelo esforço. E então,prestes a parar, fechamos nossos olhos e sentimos a melodia dolorosa de um palo tomar subitamente nossos corpos.em vão tentaremos fugir.mas não há saída possível.em segundos fomos arrebatados  pelas cordas vibrantes de uma guitarra e pelas palmas acestrais de uma bailaora.e é ali, quando não pudermos mais conter as lágrimas,que alcançaremos finalmente a perfeição.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

OFF

Sabe aquela vontade de parar, de respirar de fazer nada?É real.Não é cansaço fora de hora,não é porque você zerou a temporada de GOT,não é porque está se alimentando mal.(Talvez seja isso tudo.Também).Já pensou na quantidade de vezes que passamos um dia inteiro sem um momentinho de silêncio?Sem um intervalo entre uma solicitação ou outra?Que ritmo é esse que nos impede de ficar poucos minutos em uma mensagem, um vídeo, uma fotografia incríveis, necessários para nossa compreensão do mundo?Por que é que a vida apresenta diariamente oportunidades incríveis, que precisam ser aproveitadas, sob o risco de não conseguirmos alcançar a tão sonhada plenitude?E se arriscarmos não fazer nada, apenas por algumas horas?Desligar o celular, o laptop,(estou consciente do contrassenso que é escrever esse texto sobre desligar em modo virtual) o mundo,apenas por alguns minutos?E se tentarmos ouvir uma música ou (no estágio avançado), apenas nossos próprios pensamentos?O que ouviríamos?Quais seriam nossas demandas? Estaríamos ainda sedentos por performances corporais e profissionais, por imagens que denotassem o quanto somos legais, bem sucedidos, descolados? Talvez, no intervalo de pausa descobríssemos que tudo que nos faria feliz nesse momento seria uma bela xícara de café, ou pisar descalço em grama, das bem verdes, ou apenas passar a tarde deitados em um parque, sol no rosto e cabeça vazia (e sem celular). Talvez fosse mais fácil, no silêncio, sem imagens ou mensagens de texto sempre urgentes, perceber o que nos falta, sem ser tocado pelas demandas de um cotidiano cada vez mais intenso e iluminado de telas..Mas quem, diante de mudanças tão céleres, na vida de todo dia, arriscaria apertar o botão de off?A resposta, espero, fica a cargo de vocês. #autoajuda feelings

terça-feira, 15 de agosto de 2017

A metáfora do trem ou a metáfora do cinema

No cinema, como na vida, o movimento é o que nos conduz além, às vezes em afeto e encantamento, outras em dor e angústia. Se, por um lado, as paisagens que passam diante de nossos olhos convidam a descer em cada estação, lá no fundo, permanece a vontade de permanecer no vagão ainda mais um pouco e descobrir de que forma mesmo esse filme (ou essa viagem) vai terminar...Não é que não saibamos para onde ir. Sabemos, quase sempre. Se alguém nos perguntar diremos, sem pestanejar, todos os nossos objetivos. Diante do nosso interlocutor, palavras sólidas como trabalho, sucesso, relacionamentos, desfilarão, inúmeras, demonstrando nossa total materialidade e apego às metas que tão laboriosamente traçamos para nós. No fundo, porém, a cada palavra dita, sobrevém o pânico. Afinal de contas, o que quer dizer isso?Sucesso?Felicidade?Amor?Significa que, uma vez parado na estação correta, deixarei de observar o movimento constante das pessoas que vão e vem, de me sentir tentando a virar meu rosto diante do mais ínfimo ruído e, ao ver o trem passar, não me sentir tentado a embarcar tambem?Diante da impossível resposta, ao menos entre nós, os vivos, seguimos em frente, escolhemos uma parada ( por vezes provisória)e tocamos a vida, mais ou menos como planejamos. Vez por outra, em um intervalo das horas, enquanto coamos o café o lemos o jornal, ouvimos longe o som do apito do trem...O susto é tal que abala profundamente nossas certezas. Onde estava esse trem até agora, que nunca o tínhamos ouvido? O apito chama, convida ao movimento, exerce sobre nossas pernas a mais tentadora atração...Mas é o café, o jornal, a vida? A partir desse momento, onde abrirmos a porta, ficará tudo como está. Sem olhar para trás, seguiremos em frente, em busca da estação, sem malas, sem casaco, sem guarda-chuva. Nas mãos apenas nossos sonhos e a vontade de embarcar. Enquanto pomos nosso pé no estribo, muitos serão os que nos chamarão de volta, temerosos de nossas decisões, saudosos de nossa presença...De nada adiantará...em silêncio sopraremos um beijo, viraremos de costas e tomaremos nosso lugar. Caminhando sobre a cabine ferroviária, o peso das nossas decisões fará ranger o assoalho, tremerá sob nossos pés. O rosto na janela, o vento frio, temos diante de nossos olhos a paisagem que escolhemos. E então estamos sós. Começa nesse momento o filme que escolhemos ver, ou dele participar. Em cada curva, em cada pedra do chão, lembraremos sempre do momento em que embarcamos no trem...Em muitas estacoes, as mãos suadas de angústia, o rosto molhado de lágrimas, sangraremos em dor e dúvida, tentando entender por que afinal não descemos antes, outras, nos penitenciaremos por nunca termos voltado atrás. Enquanto refletimos as paisagens, na janela, não cansam de passar, enquadrando sempre uma outra história, dentre tantas possíveis.. Infeliz daquele que, ao sentir o chamado do trem, por medo ou cansaço, não consegue se mover...em silêncio vai até a estação todas as tardes, senta-se no banco antigo, de pedra carcomida pelo tempo e, por horas, assiste ao movimento de pessoas e coisas, até o completo carregamento da mala. Com uma profunda dor, que atravessa o peito, acompanha cada subida no vagão com dores lancinantes no peito. Mas não se move jamais. O apito final do trem entra-lhe pelos ossos. Cerra os dentes de desespero. Mas não se move. Os olhos, entretanto acompanham o seguir do trem até sumir na curva da estrada. Então ele se levanta, toma seu guarda-chuva e segue seu passo, miudamente, até encontrar de novo o caminho de casa. Em seus sonhos, contudo, o movimento do trem não cessará jamais. Cenas, cortes, sons, falas, preencherão cada segundo de sono, fazendo tremer o corpo e escorrer lágrimas dos olhos. Ao acordar, o rosto banhado em suor, pensará que foi a febre noturna e então não pensará mais nisso. Entretanto, todos os dias irá ao mesmo velho cinema, da mesma praça da cidade, na mesma sessão vazia, onde verá sempre o mesmo filme, buscando sempre a mesma cena, que nunca esteve (nem poderia estar) na película exibida diariamente. A profusão de sons e cores está dentro dele mesmo, em uma intensidade só alcançada quando o mecanismo das pequenas certezas se suaviza durante o sonho…É ali onde suas mãos corajosamente tomam o estribo e o rosto recebe o toque frio do vento …Em vão continuará, vida afora, a entrar na mesma sala, do mesmo filme e a procurar enquanto o trem, lá na estação, anuncia, inadvertidamente, o apito final.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O toca-discos

Outro dia, em casa de amigos, me dei conta das sonoridades distintas do LP, hoje conhecido como vinil...Venham falar de 5.1, DVD, CDs, todas as letras do alfabeto, nada mais belo, mais poético, do que o som contínuo do motor da conhecida vitrola, a agulha no prato e todas as músicas do mundo nas faixas negras de cada álbum. Me lembro de ter uma vitrola, dessas infantis e me fechar no quarto para ouvir música, discos ao lado, a cabeça no chão..Era comum "roubar" os LPs dos meus pais em busca de novidades e foi ali que descobri pérolas como Rolling Stones e Beatles, em inacreditáveis Compactos.. Me recordo com se fosse hoje a primeira vez que ouvi My Sweet Lord, de George Harrison em um desses compactos,onde uma maçã verde girava no centro de tudo...Aquele som,que era até então desconhecido, me pareceu fantástico, divino, não podia mesmo ser desse mundo.Anos mais tarde descobri:realmente não era... Um dia, remexendo os LPs empoeirados, encontrei Drummond e Vinícius em um mesmo álbum, ou eles me encontraram..Eram poemas, declamados pelos dois..Meio desconfiada,coloquei o disco sobre o grande prato do toca-discos da sala e me sentei no chão..E assim, sem esperar, surgiram as primeiras estrofes do "Caso do Vestido"...Enquanto Drummond falava,eu fechava os olhos, ouvia sua respiração, suas pausas, tentava decorar as palavras, o nascimento em Itabira, o ferro na ruas e nas almas...As palavras me tomaram, me senti voar pra longe.Diante de meus olhos, as ruas da cidade mineira ganhavam cor e cheiros que eu jamais esqueci..Parecia incrível que o lado B pudesse ser tão bom quanto o primeiro.Então veio Vinicius e seus sonetos,sua busca da mulher amada,sem medo,sem hesitação...Que versos!que ritmo!eu deitava bem próximo à caixa de som, para ouvir todas as pausas da leitura, queria decorar as palavras, chegava a voltar várias vezes na mesma faixa para que o versos persistissem todos na memória..Ao fundo, o barulho do motor da vitrola enchia de vida todas as frases..Muitos anos se passaram,mas a poesia dessas tardes,de descoberta de mim e do mundo,ainda está ali, na poeira das capas, no chiado das músicas e sons que ficam infinitamente mais belos sob a agulha do toca discos...

sexta-feira, 28 de julho de 2017

ponto de escuta

Quando eu entrei nessa terra de jornalistas me disseram que meu ofício era relatar um fato,tal e qual ele fosse,sem deixar que os sentimentos atrapalhassem minha fala.Quando me tornei pesquisadora (há quem diga que ainda não o sou) me disseram para me ater à metodologia, à observação distanciada dos fatos e raras e abençoadas foram as vozes (as quais me juntei),que me disseram que as emoções podiam sim,ser matéria de análise.Mas foi apenas quando me tornei ouvinte nessa terra de discursos e somei minhas lágrimas aos relatos alheios é que pude compreender com inteireza a potência de um relato,porque dele participei. Fiz-me solidária, posto que a emoção alheia também me tocou e fiz-me maior porque às minhas mãos somaram-se as mãos de muitos,tantos quantos foram aqueles que tocaram meu coração. Assim, se a ciência e a técnica dão suporte ao exercício de conhecer, a sensibilidade me trouxe a benção de poder compreender o outro,posto que dele eu também fazia parte,em igual dor e ocasional deslumbramento.Esse foi então o caminho que escolhi e nele junto meu canto a tantos outros que também sofrem e sonham e sentem,sem métodos ou distanciamento, mas desmedido afeto e e imponderável poesia.

domingo, 23 de julho de 2017

Santa Teresa

Minha memória não abarca números de ruas, placas,cpfs,CEPS. Com frequência, esqueço nomes, rostos,o título de um filme cuja história me marcou.Vez por outra, as historias se fundem, se mesclam, o epílogo de uma enveredando no clímax alheio. Misturo nomes, invento tramas, me esqueço dos finais. O que não esqueço é o cheiro das ruas,úmidas de chuva, quando o sol da tarde insiste em sair.O aroma de doce mexido no tacho, enquanto alguém aviva o velho fogão de lenha.O barulho seco da ferraria, vizinha à casa da minha avó, logo depois do almoço.Eu nunca cheguei a entender porque as tardes de Santa Teresa eram tão silenciosas, depois do alvoroço do almoço. Pratos, talheres, panelas,tudo parecia convergir nas casas, enquanto eu deitava o meu rosto na pedra fria que separava os quartos da varanda.Me parecia que pulsava como coisa viva, um pedaço de mundo ali no chão.No meio da pedra tinha uma rachadura e eu me lembro de percorrê-la com os dedos todos os dias,tentando adivinhar o momento da ruptura. Também eu rompera um dia, enquanto esperava ser criança para sempre e esperar da vida apenas a hora certa de buscar os suspiros para o lanche da tarde.Um dia alguém mediu meu tamanho e me classificou.A partir daquele momento nada mais de momentos vazios à espera do silêncio da tarde e de perder os meus dias descobrindo o mundo.Agora, era tratar de vivê-lo. No dia em que ouvi a sentença, me ergui de súbito. Corri ao espelho do grande armário da minha avó.Abri a porta, que rangeu.Estava tudo lá.A marca de ferrugem da moldura, as pequenas rachaduras da bora e até os santinhos presos à madeira velha do móvel. “E eu?”.Já não estava mais lá.Do pouco que ficava enquanto me buscava no espelho,os olhos já não tinham mais prazer na contemplação.Só medo. Ao redor, estava tudo como antes.O cheiro do refogado, o barulho dos talheres,a conversa cotidiana das minhas tias e o cheiro frio da pedra no rosto.Qual tinha sido a ruptura afinal?Talvez o olhar externo, intermediado pelos ponteiros do relógio.Mas eu?Continuava ali,no mesmo lugar,esperando a hora certa de subir a rua atrás dos suspiros, que nunca mais estariam no mesmo lugar.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Ainda sobre o silêncio

Desse momento de hesitação, no intervalo de silêncio em que se consegue perceber as engrenagens trabalhando sem cessar e, por uma vez, que tudo caminhava em sentido contrário ao natural.De repente, tudo ficou claro, posto que, com o martelar surdo dos ponteiros do relógio, de há muito que não se percebia que não havia pausas, que não havia lógica, ou sentido.As salas continuam cheias de prêmios e atestados de legitimidade, agora já sem mais importância..De repente o silêncio passou a fazer mais sentido do que qualquer palavra.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O café

Lembro quando olhava pela janela, procurando me libertar...O sol me causava dores, porque o calor e a vida estavam muito longe de mim...O som das teclas, batendo interruptamente no teclado me provocava náuseas...E o frio constante que chegava até os ossos. Eu me levantava, ia até o café ,buscava sentir o ar e o azul que cintilavam das janelas de vidro, mas estava tudo lá fora...O líquido escuro, frio, que saía da máquina expressa não me acordava, me entorpecia mais.E eu ali, presa aos 480 minutos que separavam vida e morte...E então, um dia decidi: precisava sair dali. Ou morreria. Eu queria a liberdade dos gestos, a coerência dos meus sentimentos e nada disso combinava com o cinza e vinho que organizavam meu dia. Foram longos anos de espera, preenchendo o silêncio com músicas e sons, para não enlouquecer. Era o conhecimento- eu acreditava- a porta que me levaria além. Era preciso buscar um caminho, cavar um túnel, para me aproximar de tudo aquilo que eu era... E então, subitamente,eu vi. Senti o calor de uma nesga de sol e o vento frio do outono no meu rosto. Era isso. A libertação. Caminhei rapidamente, sem olhar pra trás e agarrei a primeira mão que se estendeu. Enquanto eu me deliciava com a liberdade momentânea das horas, percebi que havia um contínuo tique-taque ainda nos meus ouvidos....Mas ,se não havia relógio, onde poderia estar o controle? Demorei segundos para perceber. Ele estava dentro de mim...As mãos que me amparavam me seguravam em compromissos, laços, tarefas intermináveis e não me restava tempo para ser....E os anos passavam. Sobre a mesa o mesmo caderno em branco, esperando para ser escrito. E a liberdade, lá fora esperando pra ser vivida. Um dia, entre um artigo e uma leitura, o gesto súbito e a xícara de café virou sobre o teclado...o líquido quente, amargo, tomou rapidamente as teclas, inutilizando o trabalho de meses...O escorrer do café me parecia libertador, contudo. Era como se, de repente, as grades de ferro dos meus pulsos se soltassem. Estava livre....Enlouquecida, extasiada, virei o restante de café no teclado. Fechei o laptop...Não me importei com a mensagem: “você deseja salvar o trabalho”? Não. Eu não desejava. Tudo que eu queria era a página em branco. E o dia lá fora. E ele não podia esperar mais. A tarde de outono já começava a cair...Rapidamente, peguei o caderno, no qual, inacreditavelmente não havia uma gota de café e saí, batendo a porta. No meio da mesa, os grilhões continuavam ali, em estado de espera...Mas era cá fora que a vida me esperava, sem razão, metodologia ou recorte. Apenas poesia e era tudo...

sábado, 3 de junho de 2017

fragmentos do hoje

Sinto tua falta..E não é do toque no meu corpo enquanto eu permanecia em estado de espera..Nem tao pouco dos olhos que me desnudaram muito antes das tuas mãos...Não é das palavras que você me jurava e eu, ainda que a contragosto, acreditava,ainda que já adivinhasse o tempo curto de todos os encontros...Tudo isso me fez incendiar, não pode haver verdade maior.sinto falta da certeza do primeiro contato, quando pronunciou meu nome e ali, sem explicação maior, percebi que a comunicação já existia, de alguma forma, em tempos e espaços distintos,mas inegavelmente ali....Não foi o susto nem tao pouco a surpresa de ouvir sua voz,mas a certeza de reconhece-la como minha desde há muito.sinto falta de tua presença, em cada momento da minha vida.durante esses muitos anos, em cada momento em que a poesia me invade, sou sua...em cada dia em que contemplo o por do sol sou sua...em cada intervalo de silencio sou sua..sou e serei sua ainda e sempre,mesmo que eu mesma não acredite.mesmo que eu jure, mesmo que eu me apaixone e sofra e sangre,haverá algum lugar em que você sempre permanecerá aqui.e eu,inevitavelmente,permanecerei à espera..

Essa é uma canção para alguém longe..por sobre todas as palavras e gestos, entre camadas de pele e ossos, rompendo o fluxo de sangue,perpassa o sensível...Por sobre todas as horas do dia, entre as emoções cotidianas da razão,no mais escondido recanto das palavras de afeto, acima de todas as esperanças.Acima de todas as respostas e lacunas, e negativas e desencontros, na contramão do relógio,alheio aos calendários,reside o tempo...E o ofício de ser subitamente tomado de poesia...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

No coração da loucura

Para chegar ao coração da loucura é preciso caminhar. Dobrar as esquinas, entre ruas não nomeadas, seguir adiante frente a informações imprecisas e moradores que certamente não saberão indicar uma direção correta, prosseguir por entre as grades do hospital psiquiátrico Pedro II, atravessar o jardim permeado de folhas mortas, virar à esquerda, cruzar a sala do acervo do Museu do Inconsciente e ali, no final do corredor, acessar o acervo das obras realizadas pelos artistas que residiram no Instituto Nise da Silveira. Ao entrar na sala, cheia até o teto, de obras as mais diversas, começamos a mergulhar no oceano profundo da loucura. Em cada pincelada, as cores, intensas, desesperadas, nos encaram do alto das molduras pregadas nas paredes e nos mostram aquilo que somos: iguais, em nossas emoções e medos. Pequenos e frágeis, diante do outro, dotados de uma magia estranha, poderosa, quando mergulhamos em nosso interior ...Crueis, quando tentamos normatizar o que o outro pode ou não pode ser....Diante de meus olhos vejo duas esculturas, lado a lado: a primeira, de traços harmoniosos, branca, com curvas sinuosas e precisas. A segunda, uma massa disforme, resultado da lobotomia no autor de ambas as obras. A diferença entre as duas obras ressoa como um tapa na cara, uma interrupção abrupta do fluxo de arte que provavelmente escorria pelas mãos do escultor, impedido permanentemente de criar. Uma bela contribuição da sociedade em prol da ordem e do progresso.#soqn Ao avançarmos no jardim, inspirada pelas palavras do guia, imagino o amontoado de corpos, antes da Dra. Nise da Silveira colocar seus pés ali. Um pouco antes dela, o espaço já fora uma horta para mulheres condenadas, confirmando o histórico do lugar para aprisionar corpos. Mas esses mesmos corpos, encarcerados, não conseguiam ficar presos de todo. Era ali, na sala de terapia ocupacional que os internos libertavam-se, ganhavam asas, fugiam das limitações cotidianas, mergulhavam dentro deles mesmos...O resultado está ali, nas milhares de telas e esculturas armazenadas no museu...Em cores que grudam em nossas retinas, em figuras de sonhos, imagens de sensações, mandalas diversas.... Tudo pulsa...Como se acompanhando o pulsar das obras, ouve-se o som de um batuque, no fundo do quintal...Seguimos até lá e, chegando no Instituto Travessias, somos invadidos por uma profusão de cores, som e movimento...Entramos no momento da apresentação de um grupo de carimbó e a sala se enche de chitas, cetim vermelho e chapéus de palha. A ordem é clara: todos ao centro da roda. É proibido ficar parado. Uma saia florida, como de costume, me encontra e, sou convidada a dançar. ...Quem seriam os loucos, os profissionais de saúde, os visitantes? Estamos todos misturados, balançando nossos corpos e girando sem parar ao som do carimbó. Ali, no meio das saias e mãos que giram, reside o coração da loucura, algo impossível de diagnosticar ou mesmo de localizar em uma pessoa qualquer.Sacwrese somos loucos, somos todos e juntos.

domingo, 16 de abril de 2017

Há uma casa à venda em Tiradentes

Há uma casa à venda em Tiradentes...De repente os contornos de um atelier me veem a cabeça.O chão de madeira,gasto,sujo,acordando para a vida lá fora no movimento da porta, que traz a luz aos poucos,iluminando os parcos moveis que restam ali..Há uma casa à venda na rua de pedras,de paredes largas,brancas,nuas,cortadas pelo limo que escorre do teto,criando um caminho próprio em meio à poeira armazenada ali..Enquanto meus olhos tentam adivinhar cada detalhe, a janela range na ânsia de ser aberta e empurrar para fora os anos de espera e silêncio..Há uma casa à venda em Tiradentes onde o sino da igreja,pontualmente às seis da tarde,imprime um componente de melancolia em cada cômodo...No canto da sala talvez resista um lavatório de pedra,rachado no meio,esperando ainda a agua fria para ajudar a comecar o dia...Encostada na parede,uma vassoura de palha,meio destruída,coberta de todo o pó que não se conseguiu varrer.Quando foi a última vez que essas paredes viram a luz,que as janelas se abriram,que a a porta rangeu e deixou entrar um tanto de vento?De onde olho vejo a casa ali,sólida,inerte,à espera.Também eu espero o momento atravessar a rua,de tocar a parede fria,de pedra,sentir a madeira carcomida pelo tempo em meus dedos e empurrar a porta,que,obviamente,me empurrará de volta,oferecendo a resistência dos anos ao meu desejo de entrar..Lutamos por alguns segundos e então consigo movê-la lentamente.O ar frio do interior da casa bate no meu rosto como um convite e ao primeiro passo já ouço o assoalho de madeira protestar,como se não quisesse que o tempo prosseguisse,como se pedisse que tudo permanecesse no mesmo lugar...Me movo lentamente, em respeito as histórias que adivinho em cada canto.Descubro ali, exatamente onde imaginei, a vassoura e o lavatório..Vou à janela,experimento-a.Ela se deixa abrir com facilidade,como se já estivesse esperando por mim.No momento em que abro cada uma, a luz do sol invade instantaneamente a sala me oferece os contornos de mesa e cadeira igualmente abandonadas..Sobre a mesa resta um único pincel,quebrado e seco..Vou até ele,prendo-o nas mãos.Fecho os olhos.Vejo um borrão luminoso, imagino baldes de tinta,telas,pinceis,invadindo a casa e expulsando o mofo das paredes...Em instantes preencho cada canto da sala com cores,lavando o limo das portas com a água do meu lavatório...Caminho pela casa e sinto o cheiro suave do café feito no fogão de pedra,perto de uma janela baixa,onde  os galhos de árvore,que penetram a casa,deixam folhas pelo chão...Aqui e ali tudo respira. Enquanto os pinceis se acumulam pela mesa da sala tento em vão varrer o pó do chão e descubro que ele ainda está ali,entranhando nas novas tintas,no cheiro do café,na água limpa e fria do lavatório.Somos ambos de um mesmo instante,de silêncio e som,luz e sombra,perpetuados pelo simples gesto de dar um passo à frente e mergulhar  nas engrenagens do tempo.Há uma casa à venda em uma rua de pedra em Tiradentes e suas paredes e portas agora fazem definitivamente parte de mim

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O piano

Quando eu nasci, ela já fazia música com os dedos.Em muitas tardes,na casa de minha vó, ela compunha exercícios nas teclas brancas e pretas de um piano escuro,atemporal,no canto da sala... Eu não entendia o porquê dela quedar em silêncio,quando terminava,como se olhasse pra dentro de si mesma.Mas aprendi a a amar as notas de La Cumparsita ao mesmo tempo que entedia que jamais iria conseguir ler aqueles símbolos impressos nas folhas velhas que ela deixava em cima do piano.Partituras, ela dizia..Mais tarde, o piano foi levado para minha casa e mais espaçadamente ouvíamos seus dedos correrem pela escala, tentando não fazer muito barulho,afinal morávamos em um prédio de muitos apartamentos.Era impossível. O som das notas,magicamente ampliadas pelos pedais, atravessava as paredes,corria os corredores, ganhava as outras casas. Ainda assim, não me lembro de haver reclamações. Um dia ela me chamou. Botou sentada do seu lado. Começou a explicar as escalas.Senti medo daquele monte de teclas, que minhas mãos não podiam alcançar. Aqui dentro do peito a música já existia mas não dava conta de chegar até as pontas dos dedos. Ainda tentei algum tempo. Batucava constantemente na mesa,onde me pilhasse sozinha. Acabei desistindo. O piano encontrou outra morada e hoje permanece fechado . Nas minhas memórias,porém, minha mãe ainda toca,todas as tardes,suas peças de Chopin. Quanto a mim,preferi compor com as palavras,que desde sempre me saltavam do peito, martelando continuamente até serem escritas. Enquanto a música fluia livremente pelos dedos de minha mãe,as palavras brotavam na minha cabeça,em frases inteiras,até que eu as conseguisse expulsar. Mas há um lugar, destinado à poesia, onde os sons e palavras se encontram,todas as tardes, para juntos criarem uma nota familiar,de memória e saudade.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Não é sobre o turbante.

Como muitos brasileiros, fui criada em uma família em que o sincretismo sempre vigorou, seja na obediência a certos preceitos do catolicismo, seja no respeito e na experimentação de mil outras formas religiosas. Ainda assim, mesmo em sendo a matriz católica uma das minhas principais referências, sempre tive problemas com a imagem da cruz...Para mim, a ideia daquele pedaço de madeira sempre foi associada ao ato de tortura que o originou, me dando náuseas a cada vez que o vejo...Ainda assim, com o tempo compreendi que, para muita gente, a cruz é um símbolo de redenção, de fé, materializando o corpo de Cristo ao alcance da mão. Não é que, a partir daquele momento, a cruz passasse a ter outro sentido para mim. Não posso abrir mão de enxergar cada corpo que foi supliciado ali, as mãos e braços abertos, a absurda agonia, mas, em algumas situações, consigo entender que há outros sentidos além do meu. Falo isso para exemplificar que, em um mundo permeado de imagens e símbolos o confronto de ideias não pode ser o motivo para a definição de não-lugares, para a deslegitimação de olhares ou o silenciamento de perspectivas distintas. Já de há muito que sabemos ser a perspectiva uma pré-condição do ato de compreender o mundo...E se cada um tem seu ponto de vista como podemos conviver, em meio a tantas representações distintas? Aí entra em cena a comunicação, o espaço “entre”, que quase nunca habitamos, preocupados que estamos em colarmos etiquetas e mascaras à nossos rostos, para sermos amados, admirados e associados ao conjunto de ideias que nos é próximo. Mas e se falamos sempre aos que nos dizem sim, como é possível convivermos? Uma sugestão fácil de falar é difícil de executar é procurar ouvir o outro.Ouvir,não no sentido de colocar-se em posição superior, mas em caráter de igualdade. Taí o grande problema.Se somos tão legais, progressistas, inteligentes, politizados, como é possível que sejamos iguais a quem não se dá o trabalho de pensar no que diz?Pois é. Ás vezes estamos em contextos e recortes absolutamente distintos e igualmente dignos de escuta...Evoluir como ser humano é não cobrar humildade do outro, mas ser humilde, não cobrar que o outro te ouça sem primeiro saber ouvir e reconhecer que há visões de mundo outras.. Falo isso para dizer que, em 99,9% dos textos lidos sobre o episódio do turbante,so li reproduções de discursos de opressão..Em poucos e louváveis exemplos, percebi a problematização de um ato de conflito de comunicação.Duas pessoas que divergem sobre um objeto, que tem significados distintos para cada pessoa.. Em vez de estimular o ponto de escuta, nos erguemos, com raiva, para apontar o dedo para a legitimidade de fala de cada uma, sem nos dar conta de que faltou escuta...Dos dois lados.Será que a representação do objeto de cada uma é igual?Decerto que não.Será que a outra sabia da representação da primeira? Com certeza,não..O que de mais importante poderia ser dito é que os desconhecimentos pudessem ser resolvidos no diálogo e cada pessoa pudesse seguir seu caminho com o peso da percepção do outro e infinitamente maior como pessoa...Não seria melhor se a moça que portava o turbante soubesse o peso que tem aquele objeto,os anos de histórias ,muitas vezes silenciadas por narrativas de opressão e seguisse seu caminho com mais consciência?Não seria melhor se,em vez de defender seu inquestionável lugar de fala, a outra pessoa, a que detem o conhecimento sobre o peso histórico do objeto, compartilhassse seu arcabouço simbólico com a outra e seguissem as duas, quem sabe de turbante,quem sabe não? Em vez disso ficamos aqui, debatendo legitimidades e a comunicação não se faz .Me faz lembrar Edgar Morin quando dizer que a educação deve formar para a compreensão do outro,ou em suas palavras.. Lembremo-nos de que nenhuma técnica de comunicação, o telefone à Internet, traz por si mesmo a compreensão. A compreensão não pode ser quantificada. Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade (MORIN, 2000, p.93). Nosso acesso às mídias ou ao conhecimento não nos faz menos intolerantes. São nossas escolhas que fazem. E, dessa forma, ouvir é o ato mais revolucionário que poderemos empreender.

sábado, 28 de janeiro de 2017

busca da poesia I

Dessa coisa inexplicavel, de se descobrir em livros, de buscar palavras, até sentir no peito nascer a inconfundível sensação da estrela brilhante que nos move ao impulso irresistível de escrever...Dessa força que angustia, aperta o coração, dá falta de ar,enquanto nao se tem diante do rosto o pedaço de papel em branco.a partir daí, as frases,que surgem prontas, no pensamento, começam a sair nas pontas dos dedos, em um convite, irrecusável à poesia..

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

19 de abril

Uma vez por ano vemos as crianças, braços e pernas enfeitados com penas e cocares e as levamos, orgulhosamente pelas ruas. Uma vez por ano elas são ensinadas que havia um povo (assim mesmo no passado) que habitava ocas, caçava e pescava para sobreviver. Uma vez por ano elas se juntam em danças, celebram hábitos encentrais e pintam o rosto com tinta colorida. Uma vez por ano, quem sabe um pouco mais, há sempre alguém que lembra que houve um povo que já estava aqui antes dos portugueses “descobrirem “ o Brasil... Muitas, muitas vezes por ano, há tanto tempo que já não sei bem quanto, há um povo que sobrevive, já não sei bem de que forma, longe das ocas, longe das tintas, braços e pernas cobertos de roupas que não são as suas…os rostos não tem mais tinta, só a fuligem das queimadas e a lama dos assentamentos... Uma, duas, três vezes por semana, há ordens de desocupação, há gritos e brigas, há homens de óculos escuros, que chegam bem perto das famílias e envergam papeis...Ha choro e revolta. Há crianças que correm. À noite, quase sempre, há vigília, porque, às vezes, há tiros. E corpos que caem... Muitas vezes, ao longo dos anos, há homens de terno e gravata que se juntam para pensar formas de mandar esse povo, aquele mesmo das ocas, para bem longe, depois da curva onde se plantam bois e onde se colhe madeira...Em todo esse tempo, quase nunca o povo das ocas foi convidado a ficar. Uma, duas, três vezes por semana, os homens de terno dispõem de terras e ocas e tintas, penas e cocares, como se fossem seus, como se os homens das ocas não fossem os verdadeiros donos da terra, desde muito, muito tempo atrás. A verdade, que quase nunca é dita é que os homens das ocas já estavam ali, com seus cocares e penas e tintas, cuidando da terra, pescando e caçando para sobreviver. Enquanto caçavam, pescavam e pintavam os rostos, pouco a pouco chegaram uns, chegaram muitos e de repente não havia mais terra... Restou um pouco de terra seca, onde acomodar os homens das ocas e restou a certeza de que eles mereciam uma compensação. Por isso, todo ano, dia 19 de abril, os filhos dos homens de gravata, cantam, dançam e pintam o rosto em homenagem aos homens que não tem mais tinta, nem cocar, nem oca. Nem Terra. E esses, desde há muito tempo, são os que se chamam selvagens.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

no caminho do meio..

é nesse prender-se no olhar do outro e ali se queimar, mergulhar no que ainda não é ,nem se conhece, no instante de silêncio que se faz,entre a vontade de fugir e a vontade de ficar, entre o talvez e o não, viver e morrer, entre nós e o resto do mundo,que reside o que nos mantem vivos...Na irresistível mistura de sim e não, ditos e não ditos e sorrisos desnecessários que não chegam até o rosto, ficam apenas na memória, está o caminho do meio, onde nunca teremos certeza, onde não há garantias, onde , a cada segundo, o relógio bate as horas certas e é preciso ir embora, para a vida de todo dia, para os compromissos e afetos com destino e função específica, para o que é destinado a dar certo..Fora todas as pequenas certezas de que são feitos nossos dias e anos,ali no espaço do que é feito para ser subentendido, é preciso apurar bem o ouvido e perceber, entre as palavras, geralmente formais e despretensiosas, um fragmento de pulsação e vida....sem estrutura, sem certezas,sem pele ou ossos, apenas alma, fugidia e irremediavelmente infinita..

domingo, 8 de janeiro de 2017

Edelweiss

A primeira vez que nossos olhos, tão acostumados ao calor e à luz dos trópicos, se deparam com as montanhas geladas da Áustria, causa impressão a curva de água que desce pela terra, em meio à neve e, no caminho, vai germinando as sementes que encontra. Entre elas está a Edelweiss, não por acaso a rara flor dos Alpes, eternizada na canção de mesmo nome, que emociona plateias até hoje em The Sound of Music (ou A noviça rebelde, para nós) ... Se olharmos com atenção, a Edelweiss é uma bela metáfora para o exercício (e o risco) de se expor diante do outro. Assim como a água gelada dos alpes percorre um caminho desconhecido até chegar às sementes, arriscando-se a não germinar e perder-se nos caminhos das florestas austríacas, toda palavra, o gesto, os olhos, arriscam-se a não encontrar nada quando buscam o contato com outros olhos, ou outras mãos. Perder-se no outro é mergulhar no silencioso desconhecido, empreender uma jornada cuja duração não poderemos precisar. A cada passo uma palavra contrária, um descuido e, talvez, a desconexão ou a indiferença. Quase como um sistema delicado de engrenagens, o encontro com o olhar do outro e a imersão nesse universo imprevisível funcionam de modo similar a uma delicada caixa de música, onde, não se sabe bem porque ou como, a um comando determinado de peças metálicas, em algum momento, o encanto se faz e a música surge, na palma de nossas mãos. Escrevo isso porque, na (des) organização dos enfeites de natal descubro uma pequena caixa de música, presente dos meus pais durante uma visita à cidade suíça de Lucerna. Após um dia inteiro de andanças, os dois me chamaram ao seu quarto e me depositaram um pequeno pacote nas mãos. Abri e me deparei com uma caixinha de música e, após breve dificuldade (ok, não tão breve assim) consegui manipular as engrenagens. Foi quando ouvi os primeiros acordes da canção Edelweiss, que me encantara desde a infância, apaixonada que sempre fui pelas aventuras da família Von Trapp. Naquele momento mergulhei profundamente nas minhas memórias e emoções de infância, tendo diante dos meus olhos os personagens que povoavam minha cabeça. A jovem leitora, os meninos, a filha mais velha e o belo casal formado por Plummer e Andrews e o Laendler, a dança típica que é executada pelos dois atores, lá pelas tantas dos filmes. Naquela caixa de música escondia-se uma parte da história da cidade, que eu tornava minha também, pela experiência de receber o objeto dos meus pais. Cientes da minha paixão, pai e mãe conseguiram resgatar nas minhas emoções, em segundos, uma parte considerável da minha infância e me conectar àquele lugar, tornando-o parte da minha memória. Enquanto a música toca, volto ao percurso nas montanhas geladas dos alpes austríacos, no deslumbramento dos rios cor de agua marinha, dos picos de neve e das arvores desconhecidas. De tudo que vi, nada ficou mais forte na memória, entretanto, do que o momento em que finalmente ouvi as notas de Edelweiss em uma pequena caixa de música que agora, à guisa de epílogo, tenho exatamente aqui, na palma da minha mão.

Edelweiss em Sound of Music https://www.youtube.com/watch?v=mMuTDdWXbNo