quinta-feira, 15 de junho de 2017

O café

O café Lembro quando olhava pela janela, procurando me libertar...O sol me causava dores, porque o calor e a vida estavam muito longe de mim...O som das teclas, batendo interruptamente no teclado me provocava náuseas...E o frio constante que chegava até os ossos. Eu me levantava, ia até o café ,buscava sentir o ar e o azul que cintilavam das janelas de vidro, mas estava tudo lá fora...O líquido escuro, frio, que saía da máquina expressa não me acordava, me entorpecia mais.E eu ali, presa aos 480 minutos que separavam vida e morte...E então, um dia decidi: precisava sair dali. Ou morreria. Eu queria a liberdade dos gestos, a coerência dos meus sentimentos e nada disso combinava com o cinza e vinho que organizavam meu dia. Foram longos anos de espera, preenchendo o silêncio com músicas e sons, para não enlouquecer. Era o conhecimento- eu acreditava- a porta que me levaria além. Era preciso buscar um caminho, cavar um túnel, para me aproximar de tudo aquilo que eu era... E então, subitamente,eu vi. Senti o calor de uma nesga de sol e o vento frio do outono no meu rosto. Era isso. A libertação. Caminhei rapidamente, sem olhar pra trás e agarrei a primeira mão que se estendeu. Enquanto eu me deliciava com a liberdade momentânea das horas, percebi que havia um contínuo tique-taque ainda nos meus ouvidos....Mas ,se não havia relógio, onde poderia estar o controle? Demorei segundos para perceber. Ele estava dentro de mim...As mãos que me amparavam me seguravam em compromissos, laços, tarefas intermináveis e não me restava tempo para ser....E os anos passavam. Sobre a mesa o mesmo caderno em branco, esperando para ser escrito. E a liberdade, lá fora esperando pra ser vivida. Um dia, entre um artigo e uma leitura, o gesto súbito e a xícara de café virou sobre o teclado...o líquido quente, amargo, tomou rapidamente as teclas, inutilizando o trabalho de meses...O escorrer do café me parecia libertador, contudo. Era como se, de repente, as grades de ferro dos meus pulsos se soltassem. Estava livre....Enlouquecida, extasiada, virei o restante de café no teclado. Fechei o laptop...Não me importei com a mensagem: “você deseja salvar o trabalho”? Não. Eu não desejava. Tudo que eu queria era a página em branco. E o dia lá fora. E ele não podia esperar mais. A tarde de outono já começava a cair...Rapidamente, peguei o caderno, no qual, inacreditavelmente não havia uma gota de café e saí, batendo a porta. No meio da mesa, os grilhões continuavam ali, em estado de espera...Mas era cá fora que a vida me esperava, sem razão, metodologia ou recorte. Apenas poesia e era tudo...

sábado, 3 de junho de 2017

fragmentos do hoje

Sinto tua falta..E não é do toque no meu corpo enquanto eu permanecia em estado de espera..Nem tao pouco dos olhos que me desnudaram muito antes das tuas mãos...Não é das palavras que você me jurava e eu, ainda que a contragosto, acreditava,ainda que já adivinhasse o tempo curto de todos os encontros...Tudo isso me fez incendiar, não pode haver verdade maior.sinto falta da certeza do primeiro contato, quando pronunciou meu nome e ali, sem explicação maior, percebi que a comunicação já existia, de alguma forma, em tempos e espaços distintos,mas inegavelmente ali....Não foi o susto nem tao pouco a surpresa de ouvir sua voz,mas a certeza de reconhece-la como minha desde há muito.sinto falta de tua presença, em cada momento da minha vida.durante esses muitos anos, em cada momento em que a poesia me invade, sou sua...em cada dia em que contemplo o por do sol sou sua...em cada intervalo de silencio sou sua..sou e serei sua ainda e sempre,mesmo que eu mesma não acredite.mesmo que eu jure, mesmo que eu me apaixone e sofra e sangre,haverá algum lugar em que você sempre permanecerá aqui.e eu,inevitavelmente,permanecerei à espera..

Essa é uma canção para alguém longe..por sobre todas as palavras e gestos, entre camadas de pele e ossos, rompendo o fluxo de sangue,perpassa o sensível...Por sobre todas as horas do dia, entre as emoções cotidianas da razão,no mais escondido recanto das palavras de afeto, acima de todas as esperanças.Acima de todas as respostas e lacunas, e negativas e desencontros, na contramão do relógio,alheio aos calendários,reside o tempo...E o ofício de ser subitamente tomado de poesia...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

No coração da loucura

Para chegar ao coração da loucura é preciso caminhar. Dobrar as esquinas, entre ruas não nomeadas, seguir adiante frente a informações imprecisas e moradores que certamente não saberão indicar uma direção correta, prosseguir por entre as grades do hospital psiquiátrico Pedro II, atravessar o jardim permeado de folhas mortas, virar à esquerda, cruzar a sala do acervo do Museu do Inconsciente e ali, no final do corredor, acessar o acervo das obras realizadas pelos artistas que residiram no Instituto Nise da Silveira. Ao entrar na sala, cheia até o teto, de obras as mais diversas, começamos a mergulhar no oceano profundo da loucura. Em cada pincelada, as cores, intensas, desesperadas, nos encaram do alto das molduras pregadas nas paredes e nos mostram aquilo que somos: iguais, em nossas emoções e medos. Pequenos e frágeis, diante do outro, dotados de uma magia estranha, poderosa, quando mergulhamos em nosso interior ...Crueis, quando tentamos normatizar o que o outro pode ou não pode ser....Diante de meus olhos vejo duas esculturas, lado a lado: a primeira, de traços harmoniosos, branca, com curvas sinuosas e precisas. A segunda, uma massa disforme, resultado da lobotomia no autor de ambas as obras. A diferença entre as duas obras ressoa como um tapa na cara, uma interrupção abrupta do fluxo de arte que provavelmente escorria pelas mãos do escultor, impedido permanentemente de criar. Uma bela contribuição da sociedade em prol da ordem e do progresso.#soqn Ao avançarmos no jardim, inspirada pelas palavras do guia, imagino o amontoado de corpos, antes da Dra. Nise da Silveira colocar seus pés ali. Um pouco antes dela, o espaço já fora uma horta para mulheres condenadas, confirmando o histórico do lugar para aprisionar corpos. Mas esses mesmos corpos, encarcerados, não conseguiam ficar presos de todo. Era ali, na sala de terapia ocupacional que os internos libertavam-se, ganhavam asas, fugiam das limitações cotidianas, mergulhavam dentro deles mesmos...O resultado está ali, nas milhares de telas e esculturas armazenadas no museu...Em cores que grudam em nossas retinas, em figuras de sonhos, imagens de sensações, mandalas diversas.... Tudo pulsa...Como se acompanhando o pulsar das obras, ouve-se o som de um batuque, no fundo do quintal...Seguimos até lá e, chegando no Instituto Travessias, somos invadidos por uma profusão de cores, som e movimento...Entramos no momento da apresentação de um grupo de carimbó e a sala se enche de chitas, cetim vermelho e chapéus de palha. A ordem é clara: todos ao centro da roda. É proibido ficar parado. Uma saia florida, como de costume, me encontra e, sou convidada a dançar. ...Quem seriam os loucos, os profissionais de saúde, os visitantes? Estamos todos misturados, balançando nossos corpos e girando sem parar ao som do carimbó. Ali, no meio das saias e mãos que giram, reside o coração da loucura, algo impossível de diagnosticar ou mesmo de localizar em uma pessoa qualquer.Sacwrese somos loucos, somos todos e juntos.

domingo, 16 de abril de 2017

Há uma casa à venda em Tiradentes

Há uma casa à venda em Tiradentes...De repente os contornos de um atelier me veem a cabeça.O chão de madeira,gasto,sujo,acordando para a vida lá fora no movimento da porta, que traz a luz aos poucos,iluminando os parcos moveis que restam ali..Há uma casa à venda na rua de pedras,de paredes largas,brancas,nuas,cortadas pelo limo que escorre do teto,criando um caminho próprio em meio à poeira armazenada ali..Enquanto meus olhos tentam adivinhar cada detalhe, a janela range na ânsia de ser aberta e empurrar para fora os anos de espera e silêncio..Há uma casa à venda em Tiradentes onde o sino da igreja,pontualmente às seis da tarde,imprime um componente de melancolia em cada cômodo...No canto da sala talvez resista um lavatório de pedra,rachado no meio,esperando ainda a agua fria para ajudar a comecar o dia...Encostada na parede,uma vassoura de palha,meio destruída,coberta de todo o pó que não se conseguiu varrer.Quando foi a última vez que essas paredes viram a luz,que as janelas se abriram,que a a porta rangeu e deixou entrar um tanto de vento?De onde olho vejo a casa ali,sólida,inerte,à espera.Também eu espero o momento atravessar a rua,de tocar a parede fria,de pedra,sentir a madeira carcomida pelo tempo em meus dedos e empurrar a porta,que,obviamente,me empurrará de volta,oferecendo a resistência dos anos ao meu desejo de entrar..Lutamos por alguns segundos e então consigo movê-la lentamente.O ar frio do interior da casa bate no meu rosto como um convite e ao primeiro passo já ouço o assoalho de madeira protestar,como se não quisesse que o tempo prosseguisse,como se pedisse que tudo permanecesse no mesmo lugar...Me movo lentamente, em respeito as histórias que adivinho em cada canto.Descubro ali, exatamente onde imaginei, a vassoura e o lavatório..Vou à janela,experimento-a.Ela se deixa abrir com facilidade,como se já estivesse esperando por mim.No momento em que abro cada uma, a luz do sol invade instantaneamente a sala me oferece os contornos de mesa e cadeira igualmente abandonadas..Sobre a mesa resta um único pincel,quebrado e seco..Vou até ele,prendo-o nas mãos.Fecho os olhos.Vejo um borrão luminoso, imagino baldes de tinta,telas,pinceis,invadindo a casa e expulsando o mofo das paredes...Em instantes preencho cada canto da sala com cores,lavando o limo das portas com a água do meu lavatório...Caminho pela casa e sinto o cheiro suave do café feito no fogão de pedra,perto de uma janela baixa,onde  os galhos de árvore,que penetram a casa,deixam folhas pelo chão...Aqui e ali tudo respira. Enquanto os pinceis se acumulam pela mesa da sala tento em vão varrer o pó do chão e descubro que ele ainda está ali,entranhando nas novas tintas,no cheiro do café,na água limpa e fria do lavatório.Somos ambos de um mesmo instante,de silêncio e som,luz e sombra,perpetuados pelo simples gesto de dar um passo à frente e mergulhar  nas engrenagens do tempo.Há uma casa à venda em uma rua de pedra em Tiradentes e suas paredes e portas agora fazem definitivamente parte de mim

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

O piano

Quando eu nasci, ela já fazia música com os dedos.Em muitas tardes,na casa de minha vó, ela compunha exercícios nas teclas brancas e pretas de um piano escuro,atemporal,no canto da sala... Eu não entendia o porquê dela quedar em silêncio,quando terminava,como se olhasse pra dentro de si mesma.Mas aprendi a a amar as notas de La Cumparsita ao mesmo tempo que entedia que jamais iria conseguir ler aqueles símbolos impressos nas folhas velhas que ela deixava em cima do piano.Partituras, ela dizia..Mais tarde, o piano foi levado para minha casa e mais espaçadamente ouvíamos seus dedos correrem pela escala, tentando não fazer muito barulho,afinal morávamos em um prédio de muitos apartamentos.Era impossível. O som das notas,magicamente ampliadas pelos pedais, atravessava as paredes,corria os corredores, ganhava as outras casas. Ainda assim, não me lembro de haver reclamações. Um dia ela me chamou. Botou sentada do seu lado. Começou a explicar as escalas.Senti medo daquele monte de teclas, que minhas mãos não podiam alcançar. Aqui dentro do peito a música já existia mas não dava conta de chegar até as pontas dos dedos. Ainda tentei algum tempo. Batucava constantemente na mesa,onde me pilhasse sozinha. Acabei desistindo. O piano encontrou outra morada e hoje permanece fechado . Nas minhas memórias,porém, minha mãe ainda toca,todas as tardes,suas peças de Chopin. Quanto a mim,preferi compor com as palavras,que desde sempre me saltavam do peito, martelando continuamente até serem escritas. Enquanto a música fluia livremente pelos dedos de minha mãe,as palavras brotavam na minha cabeça,em frases inteiras,até que eu as conseguisse expulsar. Mas há um lugar, destinado à poesia, onde os sons e palavras se encontram,todas as tardes, para juntos criarem uma nota familiar,de memória e saudade.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Não é sobre o turbante.

Como muitos brasileiros, fui criada em uma família em que o sincretismo sempre vigorou, seja na obediência a certos preceitos do catolicismo, seja no respeito e na experimentação de mil outras formas religiosas. Ainda assim, mesmo em sendo a matriz católica uma das minhas principais referências, sempre tive problemas com a imagem da cruz...Para mim, a ideia daquele pedaço de madeira sempre foi associada ao ato de tortura que o originou, me dando náuseas a cada vez que o vejo...Ainda assim, com o tempo compreendi que, para muita gente, a cruz é um símbolo de redenção, de fé, materializando o corpo de Cristo ao alcance da mão. Não é que, a partir daquele momento, a cruz passasse a ter outro sentido para mim. Não posso abrir mão de enxergar cada corpo que foi supliciado ali, as mãos e braços abertos, a absurda agonia, mas, em algumas situações, consigo entender que há outros sentidos além do meu. Falo isso para exemplificar que, em um mundo permeado de imagens e símbolos o confronto de ideias não pode ser o motivo para a definição de não-lugares, para a deslegitimação de olhares ou o silenciamento de perspectivas distintas. Já de há muito que sabemos ser a perspectiva uma pré-condição do ato de compreender o mundo...E se cada um tem seu ponto de vista como podemos conviver, em meio a tantas representações distintas? Aí entra em cena a comunicação, o espaço “entre”, que quase nunca habitamos, preocupados que estamos em colarmos etiquetas e mascaras à nossos rostos, para sermos amados, admirados e associados ao conjunto de ideias que nos é próximo. Mas e se falamos sempre aos que nos dizem sim, como é possível convivermos? Uma sugestão fácil de falar é difícil de executar é procurar ouvir o outro.Ouvir,não no sentido de colocar-se em posição superior, mas em caráter de igualdade. Taí o grande problema.Se somos tão legais, progressistas, inteligentes, politizados, como é possível que sejamos iguais a quem não se dá o trabalho de pensar no que diz?Pois é. Ás vezes estamos em contextos e recortes absolutamente distintos e igualmente dignos de escuta...Evoluir como ser humano é não cobrar humildade do outro, mas ser humilde, não cobrar que o outro te ouça sem primeiro saber ouvir e reconhecer que há visões de mundo outras.. Falo isso para dizer que, em 99,9% dos textos lidos sobre o episódio do turbante,so li reproduções de discursos de opressão..Em poucos e louváveis exemplos, percebi a problematização de um ato de conflito de comunicação.Duas pessoas que divergem sobre um objeto, que tem significados distintos para cada pessoa.. Em vez de estimular o ponto de escuta, nos erguemos, com raiva, para apontar o dedo para a legitimidade de fala de cada uma, sem nos dar conta de que faltou escuta...Dos dois lados.Será que a representação do objeto de cada uma é igual?Decerto que não.Será que a outra sabia da representação da primeira? Com certeza,não..O que de mais importante poderia ser dito é que os desconhecimentos pudessem ser resolvidos no diálogo e cada pessoa pudesse seguir seu caminho com o peso da percepção do outro e infinitamente maior como pessoa...Não seria melhor se a moça que portava o turbante soubesse o peso que tem aquele objeto,os anos de histórias ,muitas vezes silenciadas por narrativas de opressão e seguisse seu caminho com mais consciência?Não seria melhor se,em vez de defender seu inquestionável lugar de fala, a outra pessoa, a que detem o conhecimento sobre o peso histórico do objeto, compartilhassse seu arcabouço simbólico com a outra e seguissem as duas, quem sabe de turbante,quem sabe não? Em vez disso ficamos aqui, debatendo legitimidades e a comunicação não se faz .Me faz lembrar Edgar Morin quando dizer que a educação deve formar para a compreensão do outro,ou em suas palavras.. Lembremo-nos de que nenhuma técnica de comunicação, o telefone à Internet, traz por si mesmo a compreensão. A compreensão não pode ser quantificada. Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade (MORIN, 2000, p.93). Nosso acesso às mídias ou ao conhecimento não nos faz menos intolerantes. São nossas escolhas que fazem. E, dessa forma, ouvir é o ato mais revolucionário que poderemos empreender.

sábado, 28 de janeiro de 2017

busca da poesia I

Dessa coisa inexplicavel, de se descobrir em livros, de buscar palavras, até sentir no peito nascer a inconfundível sensação da estrela brilhante que nos move ao impulso irresistível de escrever...Dessa força que angustia, aperta o coração, dá falta de ar,enquanto nao se tem diante do rosto o pedaço de papel em branco.a partir daí, as frases,que surgem prontas, no pensamento, começam a sair nas pontas dos dedos, em um convite, irrecusável à poesia..

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

19 de abril

Uma vez por ano vemos as crianças, braços e pernas enfeitados com penas e cocares e as levamos, orgulhosamente pelas ruas. Uma vez por ano elas são ensinadas que havia um povo (assim mesmo no passado) que habitava ocas, caçava e pescava para sobreviver. Uma vez por ano elas se juntam em danças, celebram hábitos encentrais e pintam o rosto com tinta colorida. Uma vez por ano, quem sabe um pouco mais, há sempre alguém que lembra que houve um povo que já estava aqui antes dos portugueses “descobrirem “ o Brasil... Muitas, muitas vezes por ano, há tanto tempo que já não sei bem quanto, há um povo que sobrevive, já não sei bem de que forma, longe das ocas, longe das tintas, braços e pernas cobertos de roupas que não são as suas…os rostos não tem mais tinta, só a fuligem das queimadas e a lama dos assentamentos... Uma, duas, três vezes por semana, há ordens de desocupação, há gritos e brigas, há homens de óculos escuros, que chegam bem perto das famílias e envergam papeis...Ha choro e revolta. Há crianças que correm. À noite, quase sempre, há vigília, porque, às vezes, há tiros. E corpos que caem... Muitas vezes, ao longo dos anos, há homens de terno e gravata que se juntam para pensar formas de mandar esse povo, aquele mesmo das ocas, para bem longe, depois da curva onde se plantam bois e onde se colhe madeira...Em todo esse tempo, quase nunca o povo das ocas foi convidado a ficar. Uma, duas, três vezes por semana, os homens de terno dispõem de terras e ocas e tintas, penas e cocares, como se fossem seus, como se os homens das ocas não fossem os verdadeiros donos da terra, desde muito, muito tempo atrás. A verdade, que quase nunca é dita é que os homens das ocas já estavam ali, com seus cocares e penas e tintas, cuidando da terra, pescando e caçando para sobreviver. Enquanto caçavam, pescavam e pintavam os rostos, pouco a pouco chegaram uns, chegaram muitos e de repente não havia mais terra... Restou um pouco de terra seca, onde acomodar os homens das ocas e restou a certeza de que eles mereciam uma compensação. Por isso, todo ano, dia 19 de abril, os filhos dos homens de gravata, cantam, dançam e pintam o rosto em homenagem aos homens que não tem mais tinta, nem cocar, nem oca. Nem Terra. E esses, desde há muito tempo, são os que se chamam selvagens.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

no caminho do meio..

é nesse prender-se no olhar do outro e ali se queimar, mergulhar no que ainda não é ,nem se conhece, no instante de silêncio que se faz,entre a vontade de fugir e a vontade de ficar, entre o talvez e o não, viver e morrer, entre nós e o resto do mundo,que reside o que nos mantem vivos...Na irresistível mistura de sim e não, ditos e não ditos e sorrisos desnecessários que não chegam até o rosto, ficam apenas na memória, está o caminho do meio, onde nunca teremos certeza, onde não há garantias, onde , a cada segundo, o relógio bate as horas certas e é preciso ir embora, para a vida de todo dia, para os compromissos e afetos com destino e função específica, para o que é destinado a dar certo..Fora todas as pequenas certezas de que são feitos nossos dias e anos,ali no espaço do que é feito para ser subentendido, é preciso apurar bem o ouvido e perceber, entre as palavras, geralmente formais e despretensiosas, um fragmento de pulsação e vida....sem estrutura, sem certezas,sem pele ou ossos, apenas alma, fugidia e irremediavelmente infinita..

domingo, 8 de janeiro de 2017

Edelweiss

A primeira vez que nossos olhos, tão acostumados ao calor e à luz dos trópicos, se deparam com as montanhas geladas da Áustria, causa impressão a curva de água que desce pela terra, em meio à neve e, no caminho, vai germinando as sementes que encontra. Entre elas está a Edelweiss, não por acaso a rara flor dos Alpes, eternizada na canção de mesmo nome, que emociona plateias até hoje em The Sound of Music (ou A noviça rebelde, para nós) ... Se olharmos com atenção, a Edelweiss é uma bela metáfora para o exercício (e o risco) de se expor diante do outro. Assim como a água gelada dos alpes percorre um caminho desconhecido até chegar às sementes, arriscando-se a não germinar e perder-se nos caminhos das florestas austríacas, toda palavra, o gesto, os olhos, arriscam-se a não encontrar nada quando buscam o contato com outros olhos, ou outras mãos. Perder-se no outro é mergulhar no silencioso desconhecido, empreender uma jornada cuja duração não poderemos precisar. A cada passo uma palavra contrária, um descuido e, talvez, a desconexão ou a indiferença. Quase como um sistema delicado de engrenagens, o encontro com o olhar do outro e a imersão nesse universo imprevisível funcionam de modo similar a uma delicada caixa de música, onde, não se sabe bem porque ou como, a um comando determinado de peças metálicas, em algum momento, o encanto se faz e a música surge, na palma de nossas mãos. Escrevo isso porque, na (des) organização dos enfeites de natal descubro uma pequena caixa de música, presente dos meus pais durante uma visita à cidade suíça de Lucerna. Após um dia inteiro de andanças, os dois me chamaram ao seu quarto e me depositaram um pequeno pacote nas mãos. Abri e me deparei com uma caixinha de música e, após breve dificuldade (ok, não tão breve assim) consegui manipular as engrenagens. Foi quando ouvi os primeiros acordes da canção Edelweiss, que me encantara desde a infância, apaixonada que sempre fui pelas aventuras da família Von Trapp. Naquele momento mergulhei profundamente nas minhas memórias e emoções de infância, tendo diante dos meus olhos os personagens que povoavam minha cabeça. A jovem leitora, os meninos, a filha mais velha e o belo casal formado por Plummer e Andrews e o Laendler, a dança típica que é executada pelos dois atores, lá pelas tantas dos filmes. Naquela caixa de música escondia-se uma parte da história da cidade, que eu tornava minha também, pela experiência de receber o objeto dos meus pais. Cientes da minha paixão, pai e mãe conseguiram resgatar nas minhas emoções, em segundos, uma parte considerável da minha infância e me conectar àquele lugar, tornando-o parte da minha memória. Enquanto a música toca, volto ao percurso nas montanhas geladas dos alpes austríacos, no deslumbramento dos rios cor de agua marinha, dos picos de neve e das arvores desconhecidas. De tudo que vi, nada ficou mais forte na memória, entretanto, do que o momento em que finalmente ouvi as notas de Edelweiss em uma pequena caixa de música que agora, à guisa de epílogo, tenho exatamente aqui, na palma da minha mão.

Edelweiss em Sound of Music https://www.youtube.com/watch?v=mMuTDdWXbNo

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Já de muito tempo que a gastronomia tornou-se o território sagrado onde o glamour e a competição roubam a cena do simples ato de misturar alimentos em complexa e incerta alquimia com um só objetivo: o ponto exato.Dessa forma a textura perfeita, a delicada junção de ingredientes possibilitam a quem come a experiência única, de corpo e alma...
Enquanto isso, por trás do palco, certos saberes permanecem soberanos, restritos ao paladar de poucos, nos quintais e cozinhas mundo agora, objeto de panelas familiares e colheres de pau centenárias, onde cada foto leva consigo a ciência do afeto de muitas outras mãos , que compartilham receitas de pai(e Mãe)pra filhos...
Escrevo isso sob a certeza de que toda experiência convoca todos os sentidos, visão, audição, olfato,muito além do paladar.Se, caso raro,a degustação de uma comida ,mais do que isso,acessa o lugar da memória, vai além, somando a todos os os sentidos o componente fundamental do afeto.
Assim, em cada cozinha onde sobra o afeto e falta o glamour, o peso da colher está na perceção total dos sentidos,que não estão só no ponto exato, mas na experiência única.
Não faltam exemplos de comidas e bebidas cuja memória fará o narrador mais desinteressado fechar os olhos de saudade.No bolo das avós,no mugunzá das cozinheiras há um componente único:o tempo vivido e marcado na memória pelo afeto.e é daqui,do lugar da memória que falo, sentada em uma mesa de madeira simples, de frente para um quintal onde sobram árvores após o almoço caseiro servido por um senhor alegre, que nos recebe, após a visita à praia capixaba do Riacho Doce, com familiaridade e simpatia.Não nos pergunta o que queremos,apenas se temos fome.Em alguns minutos a bandeja vem carregada de ensopados, feijão, arroz,frango,farofa e suco de frutas..Em cada prato, totalmente desprovido de glamour, há a memória dos visitantes que chegaram aqui,atrás da mesma praia paradisíaca e encontraram o mesmo quintal,o mesmo tempero e igual simpatia...Não há receita ou técnica no mundo que possa reproduzir o vento no rosto, o cheiro do tempero,o sorriso da cozinheira e as histórias da senhora que nos traz a comida.Essa experiência não pode ser medida em estrelas,não consta em enciclopédias ou guias gastronômicos.Vai além, porque está permeada do exercício de desapegar-se da aparência e abrir o coração para o outro.

domingo, 20 de novembro de 2016

Quando o caos não gera estrelas brilhantes

A menina na escola termina seu último desenho. Ela se sente feliz, pois acabou a tarefa pedida pela professora. O pedido era para que todas as crianças, uniformemente distribuídas pela sala, desenhassem o que fizeram nas férias. A menina caprichou nas cores, gastou todos os seus azuis na página branca que ficou pesada de tantas histórias... O rosto suado pelo esforço de imprimir todas as cores do arco Iris em giz de cera grosso, as mãos multicoloridas, ela sorria um sorriso de covinhas, as bochechas ainda com restos de cores,o cabelo amassado, retorcido atrás das orelhas..A um sinal da professora, todos os alunos levaram suas composições à mesa grande...Era preciso escolher a melhor..Percorrendo com os olhos cada folha,a menina conseguiu identificar torres, igrejas, praias,todas representadas com riqueza de detalhes.. A professora, séria, ia passando de um em um, analisando as linhas, a perspectiva, um ou outro elemento. Súbito,olhou para ela.. Onde estava o seu, a professora perguntou. Atrás das costas,meio amassada nas mãos, a menina estendeu a folha pesada e colocou-a na mesa,junto aos demais..A professora analisou, franziu a sobrancelha, perguntou o que era.. A menina explicou... A professora pediu detalhes. A menina não tinha. O que tinha era uma profusão de azuis, que tomava toda a superfície do papel em nuances sem nenhuma forma ou detalhe.. Então era isso que tinha feito nas férias?Apenas uma grande mancha azul?Os colegas riram. A professora balançou a cabeça. Desse jeito seria reprovada em composição... Voltou ao seu lugar. Engoliu a recomendação de que deveria estudar a técnica, ou melhor, as técnicas, pois assim como estava jamais poderia concluir o curso... A menina abalou a cabeça e olhou o desenho onde, ao contrário dos demais, ela conseguia ver cada momento das férias... Dobrou a folha, guardou na mochila, foi cuidar da técnica. Aprendeu perspectiva, composição, todos os elementos da sintaxe visual. Foi considerada apta. Saiu da escola e foi cuidar da vida... Aprendeu Matemática, História, Português.Formou-se. Arranjou um emprego. Alugou um apartamento. Paga seus impostos. Vez por outra é vista comprando papel e tinta, quase sempre azuis, para usos inexplicáveis.. E o desenho,das férias,continua guardado no canto mais fundo do armário. O menino escondeu-se atrás dos amigos. Numa longa fila cada um deveria executar um movimento, sob a avaliação da banca. Eram muitos os pés, apertados nas sapatilhas, sobre o linóleo frio. Ao final da sala os três professores aguardavam... A cada passo que dava o menino sentia mais enjoo e vontade de sair correndo. Ballet era isso? Era por isso que aguentava cotidianamente a gozação dos irmãos e a indiferença do pai?Repuxou nervosamente a malha, ajeitou a sapatilha e alongou os braços. À sua frente os amigos pareciam calmos, enquanto ele queimava...Aquelas longas horas de exame não se pareciam nada com a sensação que teve ao ver pela primeira vez o solo do famoso bailarino, que o inspirou a entrar nas aulas de dança. Soberbo, absoluto, leve, o artista parecia voar,seus pés mal tocando o chão do palco.. Muito diferente daquilo que o menino sentia,como se suas sapatilhas estivessem pregadas no chão... Até que, de passo em passo, chegou sua vez. Pensou morrer, quando ouviu seu nome ser chamado... Caminhou pela sala sem ter certeza de que ainda tinha pernas. Posicionou-se na barra.. E esperou..Não conseguiu ouvir nenhuma das ordens da professora. Apenas lembrava brevemente da ordem dos movimentos, mas não tinha certeza alguma se estava executando-os ou apenas sacudindo braços e pernas, sem direção alguma... A tortura durou meia hora...Assim que foi dispensado, o menino levantou-se, pegou a mochila,disparou pelo corredor e não parou mais de correr,até chegar em casa.Lá escondeu as sapatilhas no canto mais fundo do armário e nunca mais mexeu...Os anos passaram e o menino cresceu.Viajou bastante.Conheceu muitos lugares diferentes...Jantou em restaurantes exóticos.Dirigiu carros incríveis.. Vez por outra assiste a um ballet, da frisa mais cara, de onde sai encantado, olhos vermelhos, mãos retorcidas de dor.. As sapatilhas,contudo,continuam guardadas no armário. A menina repousou o rosto nas mãos. Era quase meia-noite e a festa continuava animada. Um a um ela via cada um dos seus amigos partirem para a pista de dança, mas ela continuava ali, sozinha..O medo era tão grande, que não conseguia arriscar um passo..Afinal de contas,não fora ela mesmo que dissera que a dança não era importante,quando saíra da última aula?Não conseguiria mesmo aprender as técnicas, o corpo não dava conta de tantas regras e ela se sentia inadequada e incapaz. Fora sempre essa a sensação que a expulsara de todas as aulas de dança que fizera. Ao final da última se convencera de que a dança, definitivamente não era pra ela...Tinha sido esse o diagnóstico da professora, reforçado pelos parentes e amigos,certos de que ela seria ótima em qualquer outra área. Mas era ali,no ritmo da música,no meio do salão, onde o coração pulsava e cada célula do seu corpo pedia pelo movimento,qualquer que fosse ele... Ao canto ela podia ouvir os risos das amigas, condenando qualquer coisa diferente de seus narizes... Ensaiou balançar os pés, mas derrubou uma das cadeiras próximas, chamando atenção para si.. Ouviu risos da mesa ao lado e o ar condescendente do garçom,que lhe oferecera um copo de guaraná...respirou fundo e tomou uma decisão. Levantou da cadeira. Caminhou meio a medo,para o centro do salão e ali fechou os olhos,sentindo o ritmo da música tomar seu corpo.. Começou a balançar-se lentamente,quando ouviu risadas..As moças da mesa ao lado,não havia dúvida, a olhavam e riam...Gelou o peito...Respirou fundo. Baixou os olhos.Tremia...Olhou as mulheres muito profundamente...Virou a cabeça. E saiu do salão...Foi para casa.As mulheres e os salões de dança nunca mais a viram, mas os vizinhos,aos domingos, costumam ouvir um arrastar de móveis e um som de música,abafado,sair de seu apartamento.

domingo, 30 de outubro de 2016

Da micropolítica ou sobre ser coxinha...

Em dias de eleição, me pego lembrando o primeiro momento de confronto com nossa realidade eleitoral. A saber, a eleição de 1989,que elegeria o primeiro residente pós-ditadura. Ficaram gravadas no meu corpo e na minha memória as imagens de uma Santa Teresa definitivamente vermelha, coroada de bandeiras e estrelas. Havia um frenesi coletivo, uma alegria que não se conseguia segurar dentro de casa. Então íamos às ruas, exercendo ruidosamente nosso direito de escolha em todas as esquinas, comentando a possível virada e revoltando-nos em conjunto com o condenável comportamento da Globo no último debate. Eu tinha onze anos. Mesmo ainda criança ou talvez mesmo por isso, me parecia impossível que tantas vontades fossem ignoradas, afinal éramos tantos (eu pensava) e queríamos,precisávamos de mudanças. Não fazia muito tempo que, no chão da sala, minha mãe me relatara a experiência de viver sob um regime totalitário, nos 21 anos que separaram toda a efervescência dos anos 60 de um grande silenciamento político,no fechamento do congresso, suspensão de garantias constitucionais,torturas e desaparecimentos. Tudo me vinha como uma inacreditável história, das de terror, aquelas contadas ao pé da fogueira e que provocam um calafrio na espinha. A realidade nos porões do regime militar ainda me parecia uma reunião de relatos fantásticos e eu custava a acreditar que haveria tanta maldade no mundo e tantas pessoas empenhadas em ocultá-la. A segunda-feira pós-eleição nos revelou o que seria o primeiro(para mim)dos episódios em que a vontade popular seria negligenciada. Tínhamos enfim um presidente, eleito pela imagem e pelo discurso. Durou três anos. Eu já era adolescente e participei ativamente da campanha “Fora Collor”, seja em greves estudantis,em grêmios, manifestações, panfletagens e demais atividades coerentes com o que eu acreditava ser minha atuação política. Demorou algum tempo para me dar conta da quantidade de interesses e cores que existem entre a utopia e a prática, entre o sistema capitalista e o socialista,entre os diferentes lados por onde é possível sambar. Nesse meio de caminho, compreendi (acho) a diferença entre projeto político e governabilidade, ética e moral e percebi que, como diz Caetano,no que diz respeito à política nacional, quase sempre “it’s a long way” entre o pensar político e a prática cotidiana que visa o bem comum... Foi então que um dia, entre uma e outra conversa,alguém me disse,no auge de um acalorado debate, que eu estava errada sobre querer pensar “a revolução” como uma forma de transformar o mundo de cima pra baixo, pela arrogância de pensar que nós,os ‘revolucionários’, seríamos os únicos capazes de promover mudanças nas vidas de quem precisava. Calmamente,essa mesma pessoa me descadeirou ao me dizer que a revolução deveria vir do cotidiano, ao fornecermos mecanismos com os quais as pessoas, quaisquer fossem elas, pudessem elas mesmas transformarem suas vidas,como agentes das próprias trajetórias. Demorei dez anos para compreender o discurso e aplicá-lo na minha vida. E é somente hoje, quando tento me equilibrar entre a utopia a realidade,que consigo absorvê-lo inteiramente. Daqui de onde olho, da árdua e transformadora função de educadora onde tento me desenvolver(cujas responsabilidades e profundeza uma vida inteira não daria conta de apreender inteiramente)vejo uma infinidade de pessoas que,cada um a seu modo, tentam mudar o mundo,todos os dias, lutando pela educação,pela saúde,pelo direito, empoderando ou permitindo o empoderamento de um número cada vez maior de pessoas. Daqui, de onde olho, vejo pessoas que, tecnicamente odeiam “política”, praticando-a todos os dias, gastando horas para pensar mecanismos que garantam o bem estar alheio, que democratizem acesso a meios de comunicação e informação, que visibilizem a fala de um número cada vez maior de pessoas em um espaço público que se reconfigura continuamente. Muitos desses agentes transformadores estão por aí, nos bastidores, sejam eles professores,médicos, advogados, profissionais das mais variadas áreas, exercendo sua função social, seja para os ilustres desconhecidos que os cercam,seja para educarem seus filhos, amigos e parentes a respeitarem o lugar e a voz dos amiguinhos. Daqui,do lugar de “subversiva”que escolhi para mim, tais visões e ações me provocam sorrisos e me fazem acreditar cada vez mais na política dos afetos,cotidiana, que se faz nas ruas, nas escolas,nas esquinas, permeada de poesia mas, inadvertidamente, da mais palpável e transparente realidade. Em tempo:todo esse texto para pensar que a mobilização referente às eleições não se esgota no resultado de hoje.Ao contrário.Os movimentos e práticas fortalecem uma política que se faz além do voto, mas que está entranhada definitivamente no cotidiano,em nossos imaginários e relações,nas escolhas que fazemos e na perspectiva do bem coletivo que se fortalece quando nos vemos como parte de uma vida “em comum”, nas esquinas,nas nossas casas,em nossos ambientes de trabalho,na ideia de que todos temos direito à vida, à dignidade, à saúde, e educação e à comunicação,isso pra dizer o mínimo.Em cada segundo de vida precisamos compreender que a política é o exercício de ser social,algo que não nos é facultativo,mas faz parte da perspectiva contemporânea e humana que nos cerca.

sábado, 17 de setembro de 2016

Da importância de ser palhaço..

Peço licença para falar também um pouco de Domingos, ante a comoção geral.... Não do ator ou da pessoa, posto que desses, infelizmente, não me cabe falar, mesmo diante da admiração que nutria pela atuação deste. Não acompanhei muitos dos seus papeis nas novelas globais, assim como não tive a sorte de conhecer a pessoa, descrita como inesquecível, doce e iluminado, assim como parecem ser sempre aqueles que,corajosamente, encontram-se na plenitude... E Domingos me parecia, nas imagens e na fala, encontrar-se definitivamente na plenitude de si, exalando beleza, seja ela física ou espiritual.. Eu nem sabia bem seu nome, mas já admirava a bela figura do moço de cabelos grisalhos e sorriso cheio, largo, estampando as chamadas da novela ou os programas de entrevista. Mas o que me fez encantar pela pessoa de Domingos foi descobrir a entrevista que ele concedera aos diretores do filme Tarja Branca, cuja temática gira em torno da importância de brincar...Ali,o ator,antes de falar da infância ou do ofício, deixa escapar um sorriso calmo e se declara,antes de tudo,palhaço,sua primeira formação. Ator global, galã de novela, protagonista de filmes, presente em inúmeras campanhas de conscientização, Domingos preferira enfatizar que, mais do que qualquer outra coisa, ser palhaço lhe proporcionara a consciência de si e da vida, permitindo-lhe atingir a plenitude da existência.. Talvez as palavras não tenham sido exatamente essas,mas o sentido era um só:brincar é fundamental...Me apaixonei pela fala e pela transparência do ator.Então me dei conta da importância da figura do palhaço, em um mundo tão competitivo como o nosso, mundo de espelhos e máscaras, de gente frágil encastelada em suas pequenas certezas... Nessa seara ser palhaço é estar em permanentemente desconstrução, sentidos e pensamento, é ter a coragem de desnudar a alma, na medida em que nos colocamos para além da seriedade cotidiana. Ser palhaço é, definitivamente, ser livre, transver a vida, carnavalizar as estruturas sociais. Não somente nos quatros dias “momescos” que, à duras penas, temos direito, mas nos difíceis intervalos do relógio cotidiano, ser palhaço é desterritorializar afetos, propor o novo, convocar o lado mais íntimo desarmado do ser humano, aquele que sobressai quando, por vezes, sem que queiramos, ante o desempenho do sujeito de costumeiro nariz vermelho e sapatos gigantes, deixamos escapar uma gostosa gargalhada. O palhaço não é o ator porque é mais que isso, artista que não constroi um personagem ou limita-se ao desempenho. Vai além. Na beleza do improviso, desconstroi-se como sujeito para reconstruir-sem em experiência plena de sensibilidade e afeto... No exagero dos gestos cria em torno de si uma magia delicada, inserindo-se sutilmente em nossos corações e então, tornando-se eterno.. E se posso desejar alguma coisa ao palhaço Domingos é que ele permaneça,entre afeto e memória, tecendo com a magia dos seus gestos o cotidiano dos que o amam....

sábado, 30 de julho de 2016

sobre liberdades e feminismo.

Aos 11 anos escrevi meu primeiro texto feminista. Eu nem sabia o que era isso, mas foi a primeira vez que o peito doeu, absolutamente cheio de palavras a dizer e, como seria sempre a partir dali, o papel foi o melhor canal para absorver o que eu sentia. Não me lembro de toda a poesia, mas me lembro claramente de dizer que não queria um mundo onde o homem fosse humilhado, mas que estivesse, inevitavelmente, ao meu lado... Eu já buscava nessa época, uma forma de vida que não colocasse em extremidades opostas homem e mulher, ou que privilegiasse qualquer uma das partes,mas um espaço plural, de respeito e de equilíbrio. Confesso que, em algumas situações, o simples fato de ser mulher era uma atitude de protesto. Mulher em uma escola quase que totalmente de meninos (cursei CEFFET e ,na minha turma, de quarenta alunos, somente seis eram mulheres). Mulher em uma área como o TI, onde ser doce era um convite e ser antipático era um risco profissional. Mulher em uma sociedade em que engravidar aos 17 e se separar aos 20 anos era (ainda é) um crime. Mulher onde ser solteira e demonstrar o que se sente ainda é considerado uma ameaça. Não foram poucas as vezes em que me revoltei quando percebi o tanto de machismo que existe entre mulheres. Somos juízas de nossos corpos, de nossas ações. Nos submetemos bem mais do que antes ao olhar alheio. Precisamos da perfeição, profissional e estética.E julgamos - Como julgamos!!- por idade, tipo físico, comportamento... Criamos nossas filhas para serem lindas, doces,inteligentes e quase nada humanas. E aceitamos como uma regra a imposição de que somos inimigas... E então, quando me sinto sucumbir ao desânimo, ganham força vozes e ações que se levantam contra isso. Dão as mãos. Abraçam. Acolhem. Sinto finalmente quer iremos,todas juntas... Respiro aliviada. Mas ainda há muito o que fazer. Em muitos grupos feministas as décadas de combate ao machismo criaram uma força em igual medida e em "sentido contrário". Tornamos-nos, muitas vezes, conservadoras, sectárias, intolerantes. Julgamos a sexualidade e o relacionamento alheio pelos olhos do que consideramos “certo”. Proferimos verdades sobre como as outras devem ou não se comportar. Fazemos discursos sobre conceitos morais ligados ao judaico-cristianismo e nem sequer piscamos os olhos.. Afinal de contas, queremos ou não a liberação sexual?Temos que ser éticas, dizemos. Confundimos relações com contratos e nos surpreendemos reproduzindo os mesmos modelos do patriarcado, criando fogueiras onde penduramos os que ,acreditamos,não estão de acordo com a regra. Quem trai, afinal,merece ser exposto, julgado, agredido. No calor da luta, no cansaço dos anos, nos tornamos uma força contra-hegemônica, igual e no sentido oposto da força que combatemos. E nos perdemos no caminho. Enquanto navego por entre discursos femininos e feministas, percebo que nos perdemos em nossas batalhas, buscando coerência em campos tão diversos quanto a sexualidade. Queremos regras. Ainda. E como somos conservadoras! Nossos movimentos, jovens e cheios de energia, caducaram. Precisamos do poder ultrajovem, como diria Drummond, de propor outros olhares, outras sensibilidades, onde compreendamos que o sujeito é feito de complexidade e que não são necessários mais enquadramentos... É preciso respeito ao que se sente. Apenas. E afeto pelo que o outro/outra é... Uma coisa ainda me aterroriza:enquanto continuarmos nos baseando em modelos de Relacionamento ditado pelo patriarcalismo jamais seremos verdadeiramente livres.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Sobre todas as coisas

As coisas,as pessoas que amamos,são eternas até certo ponto quando, por incomunicabilidade ou incompletude,planam por nosso imaginário, no limite necessário entre o presente e o vir a ser. Pensá-las é pensar que não se acabam nunca e de certa forma perduram, pela dor ou pelo afeto, no correr de nossas horas cotidianas e em tudo que tentamos ser. Tornam-se findas (e tudo em alguma medida finda)quando, de repente, olhamos para trás e vemos que, de alguma forma também se moveram de onde estavam e seguem caminhando em direção a seus sonhos. Então vasculhamos nossos baús de memória à procura da lacuna que faltava, entre intervalos de silêncio e sorrisos e nos deparamos, inacreditavelmente, com o perdão e a constatação de que prosseguimos e que, de algum modo crescemos, apesar das dores e dos não vividos... O que sobra, para além dos anos, é o afeto, para perdurar por sobre a memória e colocar no rosto, vez por outra, enquanto estivermos distraídos, o mais inexplicável dos sorrisos. E se ainda persiste uma palavra a ser dita é de que teu caminho continue a ser trilhado, com afeto e com coragem para que sejas tudo aquilo que eu tinha exata certeza de que serias um dia... Que teu coração não caiba dentro do peito e que sorria, sempre. Que não deixe de acreditar em teus sonhos e que, por vezes, sem que possas perceber, o mesmo sorriso, subitamente, possa chegar ao teu rosto e aquecer teu peito, assim como ao meu.

terça-feira, 28 de junho de 2016

navegar é preciso

Diz-se da educação que é processo, aprendizado, discurso, metodologia. Em verdade digo que a educação, enquanto prática cotidiana, se assemelha muito ao ato de lançar-se ao mar, navegando no desconhecido. Antes, traça-se a rota,combina-se o trajeto,pensa-se na estratégia a ser executada. Antes de tudo,pensa-se o porto de destino. Trajetória escolhida, é hora de fazer as malas, juntar toda a força e coragem que tiver disponíveis,vestir as melhores roupas e sair do conforto do lar. Uma vez na sala de aula, ops, no mar, todas as nossas certezas, planos, estratégias,são postos à prova simultaneamente. Em alguns momentos tudo parece estar contra nós. Não conhecemos nossa tripulação, não temos pleno controle do navio, nem tão pouco sabemos como estará o tempo todos os dias. Em alguns momentos temos plena ciência de que o leme não está nas nossas mãos. Temos, ao longo do tempo, uma vaga ideia de nossos objetivos e mapeamentos prévios. Às vezes, só o que podemos fazer,quando nossa embarcação está em plena tempestade, é correr a tapar os buracos das balas de canhão que são lançadas continuamente, sem que consigamos saber de onde vieram ou porque tentam nos atingir. Os estragos que as balas fazem racham inúmeras vezes nosso casco, fazendo entrar água em toda a embarcação. Em alguns dias tudo o que queremos fazer é naufragar enquanto esperamos ventos favoráveis. Ao nosso redor o mar profundo e impenetrável do tempo, onde tentamos navegar, segue impávido,sem que consigamos provocar-lhe o mínimo retardo ou alteração. Em um dia qualquer, enquanto estivermos amarrados ao mastro esperando que a tempestade passe sentiremos no rosto o calor do sol e nos depararemos com nossa embarcação surpreendentemente ancorada no porto de destino.



quinta-feira, 23 de junho de 2016

Está na ordem do dia: nos ônibus, nas praças, nos consultórios,nas farmácias,na padaria,no jornaleiro.Nos programas diários,na conversa de elevador,nos relatos de domingo, no jornal, nas revistas,nas redes sociais.Não tem um lugar do mundo em que não se converse sobre emagrecimento e alimentação saudável.Sobre potencializar nossos corpos e mentes.As lojas de produtos ditos saudáveis pululam e a quantidade de gente que acumula histórias de sucesso só aumenta.Seria um momento de desapegarmos dessa acumulação ainda moderna/pós-moderna que nos fez consumir em excesso e adotarmos hábitos mais humanos, em um tempo mais nosso?Seria ótimo se, com essa onda de preocupação com saúde aceitássemos nossos corpos como são e buscássemos o equilíbrio.Só que não.Tentamos voar cada vez mais alto esculpindo nossos músculos, braços,pernas,barrigas, cabelos,rostos,nos esticando em máquinas, lasers, químicas, dobrando nossos esforços a cada dia.E aqui dentro continuamos insatisfeitos e infelizes..O que vai sobrar dessa nova onda de narcisismo,que parece ter nada a ver com o "cuidado de si"?de fato não estamos cuidando de nós mesmos.Estamos cuidando da imagem que queremos ter.Belos,fortes,bem sucedidos, os que não sentem dor,os que não se fragilizam,os que nunca param para contar os estragos...Os que não podem mostrar seus defeitos.Parece irônico que esse texto esteja no lugar do "show do eu",mas talvez seja o único espaço possível de diálogo(será?) em um mundo tão cheio de visibilidades e tão avesso ao essencial.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Como dizia o poeta

Feito essa gente que não muda com a lua, que não vê poesia, que está sempre contando tempo e dinheiro, que acumula camadas de resistência e pequenas covardias, escondidos sob mantos de não ditos e não vividos. Na medida em que caminha,os bolsos abarrotados de “nãos”,a máscara impressa na pele escorre ante o suor que o esforço em ser frio,distante, inacessível, proporciona ao sujeito...Enquanto isso, do lado de fora da janela,há o pôr de Sol, os pequenos encantamentos cotidianos, as mãos estendidas, a imprevisibilidade do encontro e a dor lancinante que virá,porque ela sempre virá,seja “sim” ou “não” sua opção de vida. Melhor é abrir portas e janelas, deixar o sol entrar, reconhecer a sua inevitável fragilidade diante do outro, que sempre vai nos invadir em alguma medida.. Enquanto você tentar ignorar o óbvio, na esquina ao lado um poeta, sentado em um banco de pedra, escreve distraído,mais uma estrofe de seu belo poema. Ele ri de sua seriedade,de sua falsa rigidez, zomba de suas certezas...Ele sabe,mais profundamente do que imagina, que defesas só são necessárias quando nos encontramos invariavelmente tocados pelo afeto... Então, ousa...Mergulha no desconhecido... Aventure-se a não ter respostas.. E seja,então,infinitamente maior do que era até então...E surpreendentemente mais feliz.. trilha sonora: https://www.youtube.com/watch?v=oIelCdlc0hA

terça-feira, 31 de maio de 2016

Alice através do espelho



E então Alice se deparou com o espelho. Tinham sido três longos anos de batalhas e aventuras,por mares nunca antes navegados..Até mesmo para ela, sedenta por novidades, o maravilhoso cheiro do mar e o infinito azul do horizonte começavam a se configurar cansativos...Sentia falta do cheiro dos seus livros velhos e do gosto morno do chá das cinco..Sentia falta da sensação do sol da tarde sobre a colcha de retalhos da sua cama e de ter na cabeça todos os sonhos do mundo...Posicionou o leme na rota e manejou o pesado navio no curso desejado.Estava finalmente voltando para casa... Três dias depois, chegava ao mesmo porto de antes. As coisas, entretanto, estavam muito diferentes.Havia uma grossa camada de poeira por sobre os móveis e teias de aranha em todos os livros..Caminhou pelo corredor vazio e as tábuas de madeira rangeram,como se estranhando sua presença..A cada passo sentia-se mais estranha naquela casa.Quando afinal chegou na porta do seu quarto, parou por alguns segundos diante dela.Voltar era retomar um ponto antes de sua viagem,voltar ao que era, recomeçar?Pensou por um momento. Não. Já não era mais a mesma de antes. Deixara muito de si nesse longo período, onde tudo que fizera fora tentar manter-se viva diante de tantos perigos.O perigo maior, contudo, fora perder-se de si mesma, na obrigação de seguir em frente e controlar a vontade de voltar, fugir das dificuldades e correr para seu quarto,onde todos os sonhos eram possíveis e estavam ao alcance da mão.Lá fora o vento soprava forte, fazia muito frio e estaria irremediavelmente sozinha.Suspirou profundamente e girou a maçaneta, abrindo a porta.Dentro do quarto,uma nesga de sol penetrava pela cortina amarela..Ali dentro tudo permanecia como antes, embora encoberto pela mesma camada de poeira que tomava o restante da casa. Caminhou até a escrivaninha e abriu a primeira gaveta. Ali dentro, seus diários, amarelados pela falta de uso. Em quase todas as páginas o desejo incontrolável de voar, de subir mais alto, de alcançar o infinito, descrito com sua mal cuidada e apressada letra. Alice sorriu. Por quanto tempo permanecera ali, protegida, voando apenas através de suas palavras. Agora, três anos passados, percebia que fora necessário preencher-se de poesia ao longo do tempo para que pudesse suportar o duro cotidiano da viagem. Cada dia era tão pleno de acontecimentos que, ao final de cada um, não conseguia o silêncio necessário para alcançar a poesia das palavras. Agora que estava de volta, entretanto, havia muito que escrever. Na memória, cada fato vivido adquiria, no silêncio do quarto, um significado particular. Tentou abrir a segunda gaveta. Trancada. Estranhou.Então lembrou-se da chave que levava no pescoço...Como fora difícil trancar essa gaveta e levar no peito por três anos a chave que poderia abri-la...Mas agora já era hora de revisitar cada memória e estar pronta para o que viesse...Destrancou a gaveta.Lá no fundo, uma caixa com algumas fotos e infinitos textos..Por dez anos essa caixa fora todo o seu mundo,preenchido minuto a minuto nas longas horas da espera. E como ela amava cada elemento dessa caixa. Um a um foi tirando dali as fotos e as palavras, incertas, em instantes da mais incontrolável alegria ou do mais profundo desespero. Nenhuma delas, entretanto, representava o que ela era naquele momento, três anos depois..Havia um vazio no seu peito depois de atravessar todo esse tempo. Algo que talvez jamais fosse preenchido de novo..Mas ali dentro, no silêncio absoluto do seu quarto aquela caixa ainda pulsava de palavras não ditas e silêncios inexplicáveis....Fechou os olhos.E então ouviu um leve ruído dentro do quarto...Olhou em redor..Continuava sozinha, mas algo se mexia perto da janela.Alice caminhou até lá e descobriu, nas dobras da cortina,uma bela borboleta azul,que ela ainda não vira por ali. Suas asas se debatiam com pressa, tentando se desprender do tecido da cortina. Alice ajudou-a a se soltar . De repente a borboleta tomou o quarto, batendo as asas em liberdade, finalmente. Encantada, Alice seguiu-a com os olhos, tentando adivinhar seus movimentos. Como era bela, ainda que desconhecida. Assim, esquecida da caixa aberta sobre a escrivaninha, ela começou a acompanhar cada movimento da borboleta, ora se aproximando, ora fugindo, sem nunca parar de voar.. Súbito, a borboleta dirigiu-se ao espelho sobre a prateleira da parede, mergulhando nele. E então desapareceu. Assustada, sem conseguir entender nada, Alice correu para o espelho e tentou descobrir uma fenda, um furo, onde a borboleta pudesse ter entrado.Não encontrou nada. Em vez disso, enquanto tateava o vidro do espelho, encontrou seu próprio reflexo. Havia três anos que ela não olhava para si mesma, preocupada que estava em ficar apresentável, eloquente e digna para uma plateia diferente a cada dia. Quem era aquela que olhava para ela com tanta intensidade ?O rosto, cansado, os cabelos, ainda no desarranjo da viagem, assim como as roupas... Mas os olhos, depois da borboleta, tinham um brilho diferente, desconhecido..Era como se, no encantamento do encontro, se permitira olhar para si mesma, descobrindo no caminho a desordem interior... Ali dentro, toda sua poesia, guardada por dez longos anos, permanecia viva, na ânsia de sair... No voo da borboleta ela vira um universo desconhecido, mas belo, de encantamento, que a atraia, irremediavelmente. Pouco importava não estivesse ainda na sua melhor forma, no desarranjo da volta... Era ali, no desassossego do encontro, que vislumbrava um caminho a seguir, onde não lhe ocorria percorrer terras distantes, mas mergulhar no seu ainda desconhecido universo particular,de imagens, silêncios e alguns sorrisos. Alice então puxou uma cadeira e subiu à altura do espelho. Tocou sua superfície fria e se sentiu irremediavelmente atraída para o centro do espelho, mergulhando em seu interior... Ali no quarto ficaram no chão uma bússola e um mapa que ela carregara por toda a viagem. A caixa de lembranças permaneceu na cama, aberta e desarrumada e da janela,ainda hoje, é possível enxergar a luz do sol que insiste em entrar,por entre as sombras da cortina.